A rena da Colina Moonkin (Moonkin Hill)
Em que Setembro considera o problema do casamento, aprende como viajar para a lua, come alimentos das fadas (de novo), ouve rádio e resolve consertar o Reino Encantado da melhor maneira possível
Setembro abraçou os cotovelos. Ela e Taiga tinham andado por algum tempo em silêncio. As estrelas desceram em direção ao amanhecer em suas caravanas cintilantes. Ela queria falar – a conversa fervia dentro dela como uma panela deixada de lado para sempre, sem ninguém se importar. Ela queria perguntar como as coisas no Reino Encantado tinham ficado desde que ela partiu. Ela queria perguntar onde ela estava em relação às Províncias de Outono ou em Gaol Solitário – norte, sul? Cem milhas? Mil milhas? Ela bem queria atirar os braços ao redor da menina-cervo, que era tão obviamente mágica, tão parecida como uma fada, rir e gritar, Você não sabe quem eu sou? Eu sou a garota que salvou o Reino Encantado!
Setembro corou na escuridão. Pois de repente lhe pareceu uma coisa bastante perversa de dizer, e ela o retirou sem sequer ter pronunciado aquilo. Taiga continuou enquanto o terreno ficava mais íngreme e as árvores de vidro começaram a receber amigos de madeira sólida e honesta, pretos e brancos. Ela não dizia nada, mas ela não dizia nada de uma forma particularmente direta, solene e deliberada que fez Setembro não dizer nada também.
Finalmente, a grama se tornou densa sobre um monte de terra, como se um elefante tivesse sido enterrado lá – e não o menor de sua espécie. Frutas grandes e brilhantes corriam por toda a colina, com suas videiras se arrastando pelo chão. Setembro não saberia dizer quais cores elas poderiam ser na luz do dia – por ora, elas ruborizavam um azul nevado cintilante.
“Vá em frente, pegue uma” Taiga disse e, pela primeira vez, ela sorriu um pouco. Setembro conhecia aquele sorriso. Era o sorriso que os fazendeiros usavam quando a colheita tinha sido boa e ela sabia disso, tão boa que vai levar todas as medalhas da feira do condado, mas as boas maneiras dizem que ela precisa parecer humilde na frente dos outros. “Os melhores moonkins do leste de Asphodel, e não deixe ninguém dizer o contrário. Eles não estarão aqui pela manhã, então devore-os enquanto eles estão amadurecidos.”
Setembro foi se rastejando até a parte de cima da colina e encontrou a menor das frutas, pequena o suficiente para que ninguém a chamasse de gananciosa. Ela a guardou em sua saia e começou a descer novamente – mas, Taiga começou a correr e passou em disparado por ela até o topo da colina. Deu um grande salto no ar, capotou e mergulhou direto na terra.
“Oh!” Setembro exclamou.
Não havia nada o que ser feito – ela seguiu Taiga até o alto da colina, abrindo caminho por entre os moonkins enormes e brilhantes. As videiras de vidro se emaranhavam por toda a parte, tropeçando entre os seus pés. Quando ela finalmente alcançou o cume, Setembro viu que a menina-cervo havia sumido. Alguém tinha feito um buraco no topo da colina, escuro e irregular com pedaços de raízes e pedras superficiais que a grama cobriu na sequência. Setembro o considerou grande o suficiente para uma garota, mas não para um homem.
Ao passo que ela gostaria de dar uma cambalhota e mergulhar como uma adorável ginasta, de cabeça para as profundezas, Setembro não sabia como girar daquela forma. Ela queria fazer, queria sentir o seu corpo girando no ar daquele jeito. Seu novo e desajuizado coração coração disse “Sem problemas! Nós conseguimos fazer isso! Mas, suas velhas e frágeis pernas não iriam obedecer. Ao invés disso, ela pôs a sua fruta empalidecida no bolso do vestido, apoiou as mãos no chão e inclinou o corpo para cima. Suas pernas nuas penduraram-se no ar que preenchia a colina. Setembro fechou os olhos com força, prendendo a sua respiração, segurando-se na grama até o último momento – e foi sugada pela terra úmida fazendo um leve ruído de sucção.
Ela caiu cerca de 1 metro.
Setembro abriu os seus olhos, primeiro um, depois o outro. Ela estava de pé sobre uma estante alta, e logo abaixo dessa havia outra ainda menor, e outra e outra, que resultava em uma pequena escadaria sinuosa de livros descendo do teto da catedral da colina Moonkin. Lá embaixo, havia várias meninas e meninos como Taiga que pararam de trabalhar para olhar a recém-chegada. Alguns deles teciam folhas de líquen em grandes cobertores. Alguns cozinhavam um ensopado cremoso, cheio de videiras Moonkin que tinha um cheiro estranho, mas não desagradável, parecido com hortelã e batatas fritas. Alguns usavam óculos e estavam preocupados com os livros contábeis, alguns reabasteciam o óleo em lindas lamparinas, outros relaxavam, soltando fumaça de seus cachimbos. O aconchego da cena dominou Setembro, cujos pés e dedos ainda formigavam de frio e enfraquecidos. Aqui e ali ela espiava tudo o que fazia aquela casa parecer viva: pinturas nas paredes, tapetes no chão, um aparador de porcelana e uma cadeira estofada que não combinava com mais nada. Cada um deles tinha os pés descalços e muito delicados.
“Atrevo a dizer que as portas são muito mais eficientes. ” Setembro ria enquanto abria caminho para descer. “Elas não são difíceis de serem feitas também. Não mais que dobradiças e maçanetas. ”
Taiga ergueu a mão para ajudar Setembro a descer a última prateleira.
“Caçadores podem usar as portas. Dessa forma, estamos seguros.”
“Você continua falando sobre caçadores! Não vimos nenhum pelo caminho até aqui e realmente, eu não posso acreditar que alguém caçaria uma garota! Eu não acho que garotas dariam um assado ou casacos muito bons.”
“Eles não querem nos matar,” Taiga disse sombriamente. “Eles querem se casar conosco. Nós somos Hreinn.”
Setembro mordeu o lábio. Em casa, ela se acostumou a saber de coisas que ninguém mais sabia. Era uma sensação boa. Quase tão boa quanto ter um segredo. Agora ela estava de volta ao país que não sabia coisa alguma.
Taiga suspirou. Ela tirou as suas botas e suas luvas e o seu casaco e guardou-os ordenadamente na cadeira que não combinava com nada. Ela respirou fundo e puxou as suas orelhas de cervo. Todo o seu corpo rodopiou em uma sombra que se projetou subitamente - e então diante de Setembro não estava mais uma menina, mas uma pequena rena com pelos pretos e manchas brancas na testa, um nariz grande e úmido e chifres grandes, felpudos e pesados. Ela era um pouco menor do que Setembro esperava que uma rena fosse, grande o suficiente para olhá-la nos olhos, mas não o suficiente para fazê-la sentir medo. Ainda que Taiga não fosse fofinha ou encantadora como as renas de revistas de Natal - em vez disso, os músculos se moviam sob sua pele, e tudo em sua forma esguia e graciosa exprimiam velocidade e força e um tipo de emoção selvagem em morder as coisas. Taiga virou a cabeça e prendeu as suas orelhas com os dentes, puxando-as com força, e em sua elegante forma de rena rodopiou-se para baixo em uma poça escura. A garota com cabelos brancos e orelhas pretas se postou diante de Setembro novamente.
E então, vagarosamente, Taiga pôs a poça em seus braços. Era preta e de pelos macios. Ela a segurava com muito amor.
“Esta é a minha pele, entende?” Taiga suspirou. “Quando nos tornamos humanos, nós ficamos com essa pequena peça de rena que sobra. Não apenas os cervos, sabe? Os cervos são fofoqueiros, brincalhões e ladrões horríveis. Renas! Hreinn. As renas não são daqui, entende? Viemos dos céus - a lua é nossa pátria mãe. ”
“Mas, ninguém pode morar na Lua!” disse Setembro. “É muito frio e não tem ar. Eu estou num clube de astronomia e a senhora Gilbert foi bastante específica nisso.”
“Sinto muito sobre a sua Lua - mas que planeta triste e pobre! Vamos guardar um lugar para ela no jantar, em respeito. Nossa Lua é rica e alegre. Com campos de arroz e com campos cobertos de moonkin até onde as suas vistas alcançam. E os Hreinn gostam de esporos cobertos de musgos aos montes que se espalham à distância. E tem os caçadores. E todo o tipo de Fadas, Sátiros, Corações Azulados, Goblins do Gelo. Uma vez que a lua foi generosa o suficiente para todos nós. Em nossos corpos de rena, corremos e nos escondemos dos comerciantes de peles e arqueiros famintos. Isso era ótimo. É assim que a Lua faz o jogo - ela é uma matrona dura e selvagem. Nós comemos e eles comem. Crescer rápido e inteligentes foram nossas canções de ninar. Fuja da panela do caçador hoje, ponha sua própria mesa amanhã. Entretanto, assim que os caçadores nos viram se transformar, eles descobriram o nosso segredo e acabaram querendo mais do que um ensopado. Eles roubaram as nossas peles e esconderam-nas, e quando um humano tem a sua pele, você é obrigada a ficar e cozinhar e limpar e bajulá-los até que envelheçam e morram. E mesmo depois disso, pode ser que você não consiga encontrar a sua pele novamente, sendo necessário queimar a cabana para pegá-la flutuando entre as cinzas. Eles nos perseguiram durante todo o caminho até o Reino Encantado desde os céus até a floresta e, mesmo assim, conseguimos nos esconder deles. ”
“Você está limpando e cozinhando agora,” disse Setembro timidamente. Um menino Hreinn ergueu os olhos da massa de pão, com as suas orelhas pontudas cobertas de farinha. Ela lembrou-se das selkies* que leu numa tarde enquanto tinha que aprender sobre diâmetros e circunferências: lindas focas com suas peles manchadas, virando mulheres e vivendo longe do mar. Ela pensou em uma estrada para a lua, iluminada por postes de luzes peroladas. Foi tão maravilhoso e terrível que suas mãos tremeram um pouco.
“Nós cozinhamos para nós comermos. Limpamos para nós apreciarmos o brilho do chão,” Taiga vociferou. “É diferente. Quando você constrói uma casa boa e forte por ser a sua casa, um lugar que você fez, um lugar do qual se orgulha, não é o mesmo que deixá-la brilhando para alguém que lhe ordenou a fazer isso. Como de costume um caçador quer devorar uma rena. Mas, aqui em Hill nós estamos salvos. Nós cultivamos os moonkins e eles nos alimentam; nós amamos a floresta e ela nos ama em seu jeito rude - o vidro brilha e corta, mas você não pode pedir para ele fazer uma coisa e não outra. Nós cuidamos de nós mesmos e só vamos à Asphodel quando precisamos de novos livros para ler. Ou quando um estranho caminha pisando tão forte que alguém precisa sair e ver quem está fazendo barulho.”
Setembro sorriu com tristeza. “Suponho que todo esse barulho seja por minha causa. Acabei de chegar no Reino Encantado, e é difícil fazer uma viagem dessas em silêncio.” Ela se apressou em corrigir-se, para que não pensassem que ela era uma simples ingênua. “Quer dizer, eu já estive aqui antes, até o Pandemônio e além. Mas eu tive que ir embora, e agora que estou de volta, não quero causar problemas para vocês, posso limpar o meu chão muito bem, mesmo que eu reclame de fazê-lo. Embora eu ache que reclamaria ainda que fosse a minha própria casinha querida e não dos meus pais, porque no geral eu sempre vou preferir ler e pensar a pegar o polidor de madeira, que cheira a algo horrível. Sinceramente e verdadeiramente, eu só quero saber onde estou - não sou um caçador, não quero me casar por um bom tempo ainda. E de qualquer forma, de onde venho, se um sujeito quer se casar com uma garota, ele são educados, cortejam e pedem a mão ao invés de capturarem. "
Taiga coçou a sua bochecha. “Você quer dizer que ninguém persegue e ninguém é perseguido? Que uma coelha pode se casar com quem quiser e ninguém vai pular sobre ela à noite para fazer a escolha por ela? E que se você quiser, poderia viver sozinho a vida toda sem ninguém te olhar feio? "
Setembro mordeu o interior do lábio. Pensou na Srta. Gilbert que ensinava francês e dirigia o clube de astronomia, e como foi escandaloso quando descobriram que ela e o Sr. Henderson, o professor de matemática, pretendiam fugir juntos. O professor Henderson tinha uma boa quantia de dinheiro e de bens, casas e carros grandes; ele só ensinava matemática, porque gostava de fazer contas. A família do senhor Henderson proibiu o romance. Eles acabaram encontrando uma garota em St. Louis com um lindo cabelo ruivo para ele e disseram-lhes para se casarem. A senhorita Gilbert ficou com o coração partido, mas ninguém discutiu com os Hendersons, e foi a partir daí que o clube de astronomia teve início. Os Hendersons eram caçadores e, sem dúvida, eles capturaram a bela moça de St. Louis com as habilidades que tinham. Então, Setembro pensou na pobre Sra. Bailey, que nunca se casou com ninguém ou teve filhos, mas vivia em uma casinha cinza com a Sra. Newitz, que nunca tinha se casado também. Elas faziam geléias, fiavam linhas e criavam galinhas, o que Setembro achava bastante agradável. Mas todos gargalhavam e sentiam pena delas, pois consideravam aquilo um desperdício. E o Sr. Graves que perseguiu a Sra. Graves por toda a cidade cantando as suas canções de amor e comprando para ela as coisas mais idiotas: margaridas roxas, favos de mel, um cãozinho de caça até que ela aceitou o anel e lhe disse sim, o que certamente parecia um tipo de caçada.
Mesmo assim, Setembro não conseguiu fazer com que as contas batessem. Era e não era a mesma coisa. Pois, ela também pensou na sua mãe e no seu pai, e como eles tinham se encontrado na biblioteca, pois ambos gostavam de ler peças ao invés de assisti-las. “Você pode fazer as produções mais luxuosas de graça em sua cabeça” sua mãe dizia. Talvez, se uma caçada tivesse existido ali, foi no momento que eles se perseguiram por entre as pilhas de livros, enviando tiros de aviso de Shakespeare na cabeça um do outro.
“Eu acho,” ela disse lentamente, somando e subtraindo casais em sua cabeça, “que, no meu mundo, as pessoas concordam com uma espécie de temporada de caça, quando se trata de casamento. Alguns aceitam ser caçados e outros aceitam ser caçadores. E alguns não aceitam ser qualquer coisa, isso é terrivelmente difícil, mas eles acabam sabendo muito sobre Dog Stars e equinócios e como obter todas as sementes de roseira brava para uma gelatina. É estranho para mim como isso funciona, quem é quem, mas espero um dia entender. E estou absolutamente certa que quando chegar a hora, eu não serei a caça ”Setembro acrescentou suavemente. “De qualquer forma, eu nunca caçaria você - e eu nem teria dado uma mordida em sua colheita se você não tivesse me convidado. Eu só quero saber onde estou e quão longe o Pandemônio é daqui, e quanto tempo se passou desde que eu parti! Se eu perguntasse sobre a marquesa, você saberia de quem estou falando?”
Taiga assobiou baixinho. Visto que a donzela-rena retirou a sua pele e não imediatamente levada para uma capela, vários Hreinn consideraram Setembro alguém de confiança. Eles enrolaram-se em seus corpos de renas e estavam agora deitados, mostrando seus lados macios e chifres bonitos. “Isso foi um mau negócio”, disse Taiga coçando a cabeça.
"Sim mas . . . história antiga ou eventos atuais? ” Setembro pressionou.
“Bem, da última vez que ouvi falar, ela estava na Paróquia da Primavera. Espero que ela fique lá por um bom tempo. Neep e eu” - ela apontou para o menino salpicado de farinha - “Uma vez fomos ao cinema na cidade e vimos um rolo sobre isso. Ela estava deitada em seu caixão de turmalina com seu gato preto de guarda e pétalas caindo por toda parte, dormindo profundamente, nem um dia mais velha de quando ela abdicou.”
“Ela não abdicou” disse Setembro indignada. Ela não pode evitar. Não foi assim que aconteceu. A abdicação seria uma coisa amigável, quando uma pessoa diz que não quer mais mandar em nada e manda tudo às favas, agradecendo gentilmente a todos pelo trabalho. Eu a derrotei. Você não vai acreditar em mim, mas eu a derrotei. Ela induziu o próprio sono para escapar de eu mandá-la de volta de onde ela veio. Eu sou Setembro. Eu sou . . .Eu sou a garota que salvou o Reino Encantado."
Taiga a olhou da cabeça aos pés. Neep também. E suas caras diziam “Vá em frente, conta outra! Você não pode nem mesmo se transformar em uma rena. Você é capaz de alguma coisa?!”
“Bem, já faz alguns anos, respondendo à sua pergunta”, Taiga finalmente falou. “O rei Crunchcrab criou um feriado. Eu acho que é em Julho.”
“Rei Crunchcrab? Charlie Crunchcrab?”Setembro gritou de alegria com o nome do barqueiro que uma vez, não muito tempo atrás, dirigiu o barco que a levou até o Pandemônio.
"Ele não gosta que o chamemos assim, na verdade", Neep a silenciou. “Quando ele pega o rádio, ele nos diz: 'Não é um marquês e não é um rei, e ninguém consegue tirar esses vestidos de babados do meu armário, mas que droga'. Ainda assim, ele é um boa pessoa, mesmo resmungando sobre ter que usar a tiara. O povo achava que uma Fada deveria se mudar para o Briary, depois de tudo que aconteceu. Mas ele foi o único que eles conseguiram capturar. ”
Setembro afundou em um sofá cor de café. Ela cruzou as mãos e se preparou para ouvir o que suspeitava que tinha acontecido, mas esperava que não. “E as sombras, Taiga? E as sombras? ”
Taiga desviou o olhar. Ela foi até a sopa e mexeu-a vigorosamente, raspando os pedaços de crostas saborosas da panela e deixando-os flutuar até o topo. Ela encheu uma tigela e a empurrou para Setembro.
"Isso não vai ser ouvido de estômago vazio. Coma e quebre o seu moonkin também, antes que o sol nasça. Eles são melhores à noite. E eles vão murchar assim que clarear. ”
Por um momento, Setembro não quis comer.
Ela foi dominada pela lembrança de temer a comida das Fadas, tentando evitá-la e morrer de fome bravamente, como ela havia feito antes, quando o Vento Verde disse que uma mordida a manteria aqui para sempre. Foi instintivo, como tirar a mão do fogo. Mas, é claro, o dano já estava feito há muito tempo, e como ela estava feliz com isso! Portanto, Setembro comeu, e o guisado tinha o mesmo gosto do qual cheirava: de hortelã-pimenta e boas batatas e algo mais além, doce e leve como marshmallows, mas muito mais saudável. Deveria ter um gosto horrível, pois quem já ouviu falar de misturar essas coisas? Mas, em vez disso, deixou Setembro cheia e enraizou o seu coração direto na terra, onde poderia permanecer forte. E esse sabor era ainda melhor: como uma abóbora, mas um tipo de abóbora muito macia e melancólica que se tornara boa amiga de maçãs verdes frescas e peras frias de inverno.
Por fim Taiga retirou a tigela dela, estalou a língua e disse: “Venha até a lareira, garota. Você vai ver que eu não estava escondendo nada de você. Eu só queria que você comesse primeiro, para assim ficar mais forte. "
Todos os Hreinn se reuniram, alguns em forma de rena e outras humanas, pelas extremidades do grande corredor da colina.
Havia uma grande coisa coberta com lona esperando ali, mas sem fogos, tijolos ou brasas. Neep puxou o tecido - e um rádio brilhou na parede.
Não se parecia em nada com o rádio de nogueira da sua casa. Este era feito de galhos de madeira preta e de vidro, alguns deles ainda em flor, mostrando flores de vidro flamejantes, como se o sol de alguma forma ainda brilhasse através deles. Os botões eram cogumelos verdes duros e a grade era feita de folhas de cenoura. Taiga se inclinou para frente e girou os cogumelos até que um estalo encheu o ar e a Hreinn se aproximou para ouvir.
“Esse foi o resumo da noite do Serviço de Notícias do Reino Encantado” e falou uma agradável voz masculina, jovem e gentil. Oferecido pela Associação de Serviços Jornalísticos do Reino das Fadas e da Loja de roupas de inverno da Belinda Repolho, trazendo a você todas as novidades do Equipamento Científico Louco. Nós aqui no Bureau estendemos nossas mais profundas condolências aos cidadãos de Pandemônio e especialmente a Nosso Charlie, que perdeu suas sombras hoje, contabilizando seis condados e um guarda esta semana. Se vocês pudessem me ver, ouvintes leais, veriam meu boné contra meu peito e uma lágrima em meus olhos.Repetimos nosso apelo ao bom povo do submundo do Reino Encantado, e imploramos que cessem as hostilidades imediatamente. Em outras notícias, as rações caíram pela metade e novas passagens podem ser coletadas nas estações municipais. Lamentamos profundamente o Rei C por esse motivo, mas agora não é hora de temer, mas de nos unirmos e nos esforçarmos da melhor maneira possível. Mantenham a calma e sigam em frente, bons amigos. Mesmo sem sombras, devemos perseverar. Boa noite e boa saúde. ”
Uma melodia diminuta começou, algo com flauta inglesa, banjo e um tambor suave. Taiga desligou o rádio.
“O objetivo é sintonizar-se com você, para encontrar a estação que tem a música ou as notícias que você deseja ouvir. Direto do Repolho, e esse é o melhor que existe. ” Taiga deu um tapinha no joelho de Setembro. “É do submundo do Reino Encantado, todo o conhece. As sombras simplesmente penetram no solo e desaparecem. Eles estão roubando nossas sombras e sabe se lá por quê? Para comer? Matar? Casar? Para pendurar nas paredes como cabeças de veado? O submundo do Reino Encantado está cheio de demônios e dragões, e entre eles existem os bons e ruins. "
Setembro se levantou e limpou uma semente de mookin que estava caída em seu vestido de aniversário. Ela olhou uma vez para cima, e o seu coração queria tanto os seus amigos Ell, o Draladoteca, e Sábado, o Marid, junto com ela que estava quase pulando de seu peito e indo sozinho atrás deles. Mas, seu coração ficou onde estava e ela voltou o rosto para Taiga, que não seria sua amiga afinal, não agora, quando ela ainda tinha um caminho tão longo a seguir. “Diga-me como entrar no submundo do Reino Encantado,” Setembro disse calmamente, com a dureza de uma garota muito mais velha.
“Por que você iria lá?” Neep disse de repente, com a voz alta e apreensiva. “É terrível. É escuro e não há lei alguma e os Dodos simplesmente se rebelaram lá embaixo, como ratos. E. . . ” ele baixou a voz para um guincho, "o Soldado Alemão mora lá." O outro Hreinn estremeceu.
Setembro endireitou os ombros. “Eu vou recuperar as suas sombras, de todos vocês, e do Nosso Charlie também. E até mesmo a minha. Porque foi minha culpa, entende? Eu provoquei isso. E você deve sempre limpar as suas próprias bagunças, mesmo quando as suas bagunças se parecem com você e fazem uma reverência muito cruel quando querem dizer: eu vou criar problemas para todo o sempre. ” E então Setembro explicou a eles como ela havia perdido a sua sombra, como ela desistiu disso para salvar uma criança Pooka e deixou que um Goblin cortasse a sua sombra com uma terrível faca feita de ossos. Como a sombra se ergueu como uma garota e girou de uma maneira muito desconcertante. Ela contou a Taiga, Neep e os outros como o Goblin havia dito que eles a pegariam, amariam-na e a colocariam no topo de todos os desfiles, para assim mergulharem no reino que havia embaixo do rio, onde certamente seria o submundo do Reino Encantado. Embora ela não pudesse afirmar, Setembro tinha certeza de que sua sombra e as sombras de todos os outros eram parte do mesmo problema, e problemas deveriam ser resolvidos, custe o que custasse, especialmente se você tivesse sido o primeiro a criá-lo. Entretanto, Setembro não contou mais sobre os seus atos do que o necessário. No final das contas, mesmo que ouvissem que ela era boa com uma chave inglesa de fada pudesse deixá-los mais confiantes sobre ela, ela não seria capaz. Não era nada para se gabar, dado que ela deixou o Reino Encantado tão chateada por partir. Ela implorou a eles novamente para que lhe dissessem como chegar até aquele outro Reino Encantado; ela se arriscaria entre os caçadores que corriam tão desenfreados pela floresta.
“Mas Setembro, não é como se houvesse um alçapão e você simplesmente descesse”, insistiu Taiga. “Você tem que ver a Sybil. E por que fazer isso, por que ir ver aquela senhora horrível ao invés de ficar aqui conosco e comer moonkins e ler livros e tocar canções tristes nas raízes e ficar a salvo? ” A garota-rena olhou para seu rebanho e todos concordaram, alguns com rostos compridos e peludos, outros com rostos humanos magros e preocupados.
“Mas você deve ver que eu não posso fazer isso”, disse September. “O que o meu Draladoteca pensaria de minhas músicas tocando enquanto o Reino Encantado estiver sofrendo? Ou Calpurnia Farthing the Fairy Rider ou Mr. Map ou Sábado? O que eu pensaria de mim mesmo, no final das contas? ”
Taiga concordou tristemente, como se dissesse: Discutir com humanos só leva às lágrimas. Ela foi até uma das estantes, ficou na ponta dos pés e tirou um grande livro azul da última prateleira.
“Estávamos guardando isso” ela explicou. “Mas para onde você estiver indo, irá precisar muito mais do que nós”.
E ela abriu as capas da meia-noite. Dentro, como um marcador de livro, havia um bloco de anotações quadrado fino e lindamente pintado, onde haviam sido deixados dois feixes de folha, tendo o resto sido arrancado e usado muito tempo antes. Sua lombada brilhava junto as páginas macias de cor creme e as suas beiradas filigranadas com prata e estrelada. Lia-se:
LIVRO DE PROVISÕES MÁGICAS
CONTENTE-SE COM MENOS, PARA QUE TODOS POSSAM TER MAIS
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