8 de dezembro de 2020

Tradução Livre - Capítulo I

Livro: The girl who fell beneath Fairyland and led the revels there

A garota que caiu embaixo do Reino Encantado e liderou a diversão por 

Capítulo I

Fuga em um barco a remo, perseguida por Corvos

Em que uma garota chamada Setembro guarda um segredo, passa por dificuldades na escola, faz 13 anos, e finalmente está perto de ser atropelada por um barco a remo,  encontrando assim o seu caminho para o Reino Encantado.

Era uma vez, uma garota chamada Setembro e ela tinha um segredo.
Sabe, segredos são coisas delicadas. Eles podem preencher com doçura e deixar você como um gato que encontrou um gordo pardal para comer sem se preocupar nenhuma vez com arranhões e bicadas, enquanto está a par disso. Mas, eles também podem ficar presos dentro de você e bem lentamente ferver os seus ossos para a suas sopas amargas. Assim, o segredo te tem na mão, não o contrário.
Então, nós devemos ficar muito agradecidos que Setembro tinha o melhor dos segredos e o levou consigo como uma par de luvas chiques que, quando ela estava com frio, ela poderia tirá-las e colocá-las novamente para se lembrar que os dias quentes se foram.

O segredo de Setembro era esse: ela tinha ido para o Reino Encantado.

Isso já aconteceu com outras crianças na história do mundo. Há muitos livros sobre isso, e durante muito tempo garotinhos e garotinhas tem lido-os e feito espadas de madeiras e centauros de papel, esperando por sua vez. Mas, para Setembro a espera acabou na primavera passada. Ela lutou contra uma rainha malvada e salvou o Reino todo de sua crueldade. Ela tinha feito amigos que, além de serem divertidos, corajosos e inteligentes, eram um Dragão, um Marid e uma lâmpada falante.

O único problema é que são poucos os livros sobre mosqueteiros que falam sobre o que fazer quando chegar em casa. Setembro mudou profundamente da menina que desesperadamente queria que essas coisas fossem reais para alguém que passou a saber que eram reais. Tal mudança pode ser comparada a conseguir uma nova cabeça, do que um novo corte de cabelo.

Isso não necessariamente melhorou sua vida escolar.

Onde Setembro parecia meramente e silenciosamente estranha, olhando para fora da janela durante as aulas de matemática e lendo grandes livros coloridos embaixo de sua mesa durante as aulas de direito. Agora as outras crianças notavam algo selvagem e alheio nela. As garotas da sala não conseguiam dizer o que Setembro tinha que as incomodavam. Se você sentasse com elas e perguntasse algo sobre isso, a melhor explicação que elas te dariam é "ela não é como nós."

E então elas não convidariam Setembro para festas de aniversários; elas não perguntariam sobre suas festas de verão. Elas roubariam seus livros e contariam mentiras sobre ela para os professores. "Setembro colou na prova de álgebra", elas afirmavam com sinceridade. "Setembro leu livros velhos e feios durante os exercícios físicos", "Setembro foi para trás do prédio de Química com os meninos". Elas riam pelas suas costas em tons que faziam surgir pontas espinhosas em todo redor de seus vestidos e cabelos cacheados com laços. Elas ficavam de pé dentro dessas pontas, e aos sussurros diziam que Setembro sempre ficaria do lado de fora.

Em contrapartida, Setembro guardou o seu segredo. Quando ela se sentiu horrível e sozinha e com frio, ela levaria isso embora e o sopraria como brasas, até que elas brilhariam novamente e a preencheriam: A-Até-L, seu Draladoteca, fungando no cheque azul de Sábado até ele rir, o Vento Verde marcando  seus sapatos esmeraldas de neve no trigo. Todos eles aguardavam que ela voltasse, qual ela faria - em breve, tão terrivelmente breve, a qualquer momento a partir de agora. Ela sentiu muito gosto por sua tia Margareth, que nunca parecia a mesma depois que retornava de suas viagens para a casa. Ela contava longas histórias sobre Paris e calças de seda e acordeões vermelhos e buldogues e ninguém a entendia particularmente. Mas, eles a ouviam educadamente até ela sumir, procurando-a pela janela bem como se ela pudesse ver o rio Sena fluindo em vez de acres após acres de trigo e milho. Setembro sentia que entendia a sua tia agora e decidiu ser especialmente atenciosa com ela em sua próxima visita.

Todas as noites, Setembro continuava. Ela lavava as mesmas rosa-e-amarela xícaras de chá que ela tinha sempre lavado, cuidava do mesmo pequeno e cada vez mais ansioso cachorro que ela cuidava, ouvia o pequeno rádio feito de madeira de nogueira sobre boletins da guerra, sobre o seu pai. O rádio assomava-se tão alto e enorme na sala deles que chegava a parecer como uma porta terrível, pronta para abrir a qualquer momento e deixar más notícias lá dentro. Assim como o sol se punha na longa pradaria amarela de cada dia, ela mantinha o olho aguçado em busca de um flash verde no horizonte, uma pele manchada brilhando na grama, uma certa risada, um certo purr. Mas, o outono tratou seus dias como um baralho de cartas douradas e ninguém apareceu.

Sua mãe tinha o domingo livre do seu trabalho na fábrica de aeronaves e, então, Setembro começou amar os domingos. Elas sentariam juntas confortavelmente perto do fogo e liam enquanto o cachorro mexia nos cadarços de seus sapatos ou sua mãe deslizava para dentro do miserável e velho modelo A do Sr. Albert e batia nele até Setembro pode virar a chave e poder ouvi-lo resmungar para a vida mais uma vez. Não faz muito tempo sua mãe lia em voz alta para ela um livro ou outro sobre fadas ou soldados ou pioneiros, mas agora elas liam amigavelmente, cada uma a sua própria novela ou jornal, exatamente como Setembro se lembrava de sua mãe fazendo com o seu pai, antes da guerra. Domingo foi o melhor dia, quando a luz do sol parecia brilhar para sempre, e Setembro florescia sob o grande e franco sorriso de sua mãe. No domingo ela não se machucou. Ela não sentiu falta de um lugar que ela nunca poderia explicar para um adulto. Ela não desejou que o seu pequeno jantar com a sua ração escassa de carne enlatada fosse um estranho banquete de doces e corações torrados e melões roxos cheio de vinho da chuva.

No domingo, ela quase não pensou mesmo no Reino Encantado.

Às vezes, ela considerava em contar para a sua mãe sobre tudo o que aconteceu lá. Às vezes, ela queria mesmo fazer. Mas, algo 
mais antigo e sábio lhe dizia: Algumas coisas são para guardar e esconder. Ela temia que se dissesse em voz alta sobre o que aconteceu tudo desapareceria, nunca mais existiria e explodiria como um algodão dente de leão. Mas e se nada tivesse sido verdadeiramente real? E se ela tivesse sonhado, ou pior, ela tivesse perdido a memória como aconteceu com a prima do seu pai na cidade de Iowa? Qualquer uma dessas opções seria tão horrível de considerar, mas ela não poderia considerar tudo a mesma coisa.
Sempre que ela tinha aqueles pensamentos obscuros que ela deveria ser apenas uma garota boba que lia vários livros, que ela deveria estar louca, Setembro olhava para trás e estremecia. Por ela ter provas de que tudo realmente aconteceu. Ela tinha perdido a sua sombra lá, em um rio distante, perto de uma cidade distante. Ela tinha perdido algo grande e verdadeiro e não poderia pegá-la de volta. E se ninguém notava que ela não projetava para frente ou para trás, Setembro não teria que dizer também. Mas enquanto o seu segredo permanecia secreto, ela sentia que poderia suportar tudo - as garotas na escola, os longos turnos da mãe, a ausência do seu pai. Ela poderia até suportar o rádio crepitando como um fogo sem fim.


Quase 1 ano tinha se passado desde quando Setembro voltou para casa do Reino Encantado. Sendo uma criança bastante prática, ela se tornou muito interessada em mitologia, desde suas façanhas no outro lado do mundo, estudando os costumes das fadas e dos deuses antigos e a monarquia hereditária e outros folclores mágicos. Por meio de suas pesquisas, ela raciocinou que foi mais ou menos um ano. Uma grande volta completa do sol. Certamente o Vento Verde estaria navegando pelo céu de volta para ela algum dia, rindo e saltando e rimando, este seria o seu jeito de voltar para o mundo dela. E uma vez que a Marquesa tinha sido derrotada e as fechaduras do Reino Encantado desfeitas, dessa vez Setembro não teria façanhas terríveis para realizar, nem testes severos sobre a sua coragem, somente prazer e diversão e brincadeiras bobas.
Mas, o Vento Verde não veio.
Assim como o fim da primavera estava próxima, ela voltou a se preocupar seriamente. O tempo corria diferente no Reino Encantado - e se ela completasse 80 anos antes de 1 ano ter passado lá? E se o Vento Verde viesse e encontrasse uma senhora idosa reclamando de tudo? Bem, com certeza Setembro iria com ele de qualquer forma - ela não hesitaria tendo 18 ou 80 anos! Mas senhoras idosas certamente enfrentariam perigos no Reino Encantado, tal como quebrar um quadril enquanto estivesse cavalgando um triciclo selvagem ou ter todo mundo fazendo o que você diz, só porque você tem rugas no rosto. A última coisa não seria de todo mal - talvez Setembro pudesse ser uma fabulosa bruxa velha e aprendesse a gargalhar. Ela poderia ficar muito boa nisso. Mas demorou tanto a espera! Até mesmo o pequeno cachorro de rosto sombrio começou a olhar fixamente para ela, como se lhe dissesse, Vocês não deveriam estar se dando bem agora?
E pior, e se o Vento Verde tivesse se esquecido dela? Ou encontrado uma outra garota tão capaz quanto Setembro em derrotar a maldade e dizer coisas inteligente? E se todo mundo no Reino Encantado tivesse simplesmente feito uma reverência em agradecimento pelo favor e voltado para as suas vidas, sem pensar mais em sua pequena amiga humana? E se nunca mais ninguém voltasse para ela novamente?
Setembro completou 13 anos. Ela nem se preocupou em convidar alguém para uma festa. Ao invés disso, sua mãe lhe deu uma pilha de cartas de racionamento amarradas por uma fita marrom aveludada. Ela os economizou por meses. Manteiga, açúcar, sal, farinha. E na loja, a senhora Bowman lhe deu um pequeno pacote de cacau em pó para coroar tudo. Setembro e sua mãe fizeram um bolo juntas na cozinha, enquanto o pequeno e frenético cachorro pulava para lamber a colher de pau. A guloseima tinha tão pouco chocolate que parecia ter cor de poeira, mas para Setembro tinha um gosto maravilhoso. Depois elas foram ver um filme sobre espiões. Setembro pegou um saco cheio de pipoca só para ela e alguns doces também. Ela se sentiu tonta com a abundância de tudo aquilo! Foi quase tão bom quanto um domingo, especialmente porque ela conseguiu três novos livros impressos em folhas verdes especiais - um deles em francês - enviados de uma aldeia que havia sido liberada pelo o seu pai (nós podemos ter certeza que o pai de Setembro ajudou na liberação desta aldeia, mas no que diz respeito a Setembro, ele fez isso sozinho. Possivelmente pela ponta de uma espada, em cima de um glorioso cavalo negro. Às vezes, Setembro achava bastante difícil pensar na guerra do seu pai sem pensar também em sua própria guerra.) Claro que ela poderia não ler isso, mas ele havia escrito na capa "Eu verei você em breve, minha garota." Isso o tornou o melhor livro já escrito. Ele tinha ilustrações, várias, de uma garota não muito mais velha que Setembro sentando na lua e conseguindo alcançar as estrelas com as suas mãos ou de pé no alto de uma montanha lunar conversando com um estranho chapéu vermelho que tinha duas longas penas e que saiam dele para flutuar ao seu lado bem quando ela quisesse. Setembro se debruçava sobre tudo isso e de um jeito teatral tentava dizer as palavras que soavam estranhas e também tentava contar como a história deveria ser. Elas devoraram o bolo cor de poeira rapidamente e a sua mãe pôs uma chaleira no fogo. O cão atacou um osso poderosamente satisfatório. Setembro pegou seus novos livros e saiu para os campos ver o anoitecer e refletir. Ela ouviu o rádio crepitando e falando enquanto ela se permitia sair pela porta dos fundos. O estouro da estática a seguia como uma sombra cinza.
Setembro deitou nas longas gramas altas de Maio. Ela olhou por sobre os talos verdes dourados de grãos. O céu brilhava em tom azul profundo rosado e uma pequena estrela amarela apareceu como uma lâmpada na noite quente. Está é Vênus, Setembro pensou. Ela era a deusa do amor. É bom que o amor venha logo à noite e seja o último a partir pela manhã. O amor mantém a luz acesa por toda a noite. Seja quem for que pensou em chamá-la de Vênus deveria ganhar a nota máxima.
Nós devemos perdoar nossa garota por ignorar o som no início. Pela primeira vez, ela não estava procurando por sons ou sinais estranhos. Pela primeira vez, ela não estava pensando mesmo no Reino Encantado, mas sim a respeito de uma garota falando com um chapéu vermelho e o que isso poderia significar e quão maravilhoso era seu pai ter libertado toda uma aldeia. De qualquer forma, farfalhar é um ruído bastante comum quando os campos de trigo e as gramas selvagens estão envolvidas. Ela ouviu isso e uma pequena brisa bagunçando as páginas dos seus livros de aniversário, mas ela não olhou para cima até um barco a remo voou em alta velocidade sobre a sua cabeça nas pontas dos talos de trigo como se fossem ondas.
Setembro deu um salto e viu duas figuras em um pequeno barco preto, remos girando furiosamente, pulando rapidamente por sobre os campos. O primeiro tinha um chapéu largo, liso e escuro como o de um pescador. E a outra arrastava uma mão larga e prateada sobre as pontas dos grãos secos. O braço cintilava metálico e reluzente, como o pulso fino de uma mulher, metálico e reluzente, com unhas de ferro nas pontas das mãos. Setembro não conseguia ver os seus rostos - o homem tinhas as costas curvadas e enormes, obscurecendo a dama prateada, com exceção dos seus braços.
"Espere!" Setembro gritou, correndo atrás do barco tão rápido quanto ela pudesse ir. Ela reconhecia os acontecimentos do Reino Encantado assim que os via e conseguia vê-los pulando para longe dela naquele exato momento. "Esperem, eu estou aqui!".
"É melhor procurar por Alleyman," falou o homem de capa preta, olhando por sobre os seus ombros. Sombras escondiam o seu rosto, mas a sua voz soava familiar, um tipo de voz doente e áspera que Setembro quase conseguia assimilar. "O Alleyman vem com um carrinho de cartas e um caminhão de ossos, e ele pega todos os nossos nomes numa lista."
A dama prateada pegou o vento com a sua mão reluzente em forma de concha. "Eu estava cortando arames farpados antes de você cortar os seus dentes de leite, caro senhor. Não tente me impressionar com as suas gírias e os seus versos livres e o seu jeito de vencer."
"Por favor, esperem!" Setembro chamava por eles. Seus pulmões se apertavam com força e pesados. "Eu não consigo acompanhar!"
Mas eles remaram mais rápido, por sobre as pontas dos campos e a noite tinha o seu rosto certo e apropriado agora. Oh, eu nunca conseguia alcançá-los" Setembro pensava freneticamente e o seu coração se apertava. Pois embora, como dissemos, todas as crianças são impiedosas, isso não é precisamente verdadeiro sobre os adolescentes. Os corações adolescentes são inexperientes e novos, rápidos e ferozes, e eles não conhecem suas próprias forças. Muito menos sabem suas razões ou suas limitações, e se você quer saber mesmo a verdade, um bom número de corações crescidos nunca aprenderão. E se nós tivéssemos que dizer agora, assim como não pudemos dizer antes, que o coração apertado de Setembro, tinha começado a crescer nela como uma flor na escuridão. Nós também devemos tirar um momento e sentir muito por ela, por ter um coração leve frente aos sofrimentos peculiares dos adultos.
Setembro então, em sua inexperiência, com um coração imaturo e espremido de pânico, correu mais rápido. Ela tinha esperado por tanto tempo e agora eles estavam fugindo. Ela era tão pequena, tão devagar. Como ela poderia aturar isso, como ela poderia suportar a ideia de que perdeu a sua chance? Sua respiração se tornou tão tensa e tão rápida e suas lágrimas começaram a cair pelo canto de seus olhos, apenas para serem chicoteadas enquanto ela corria, esmagando alguns milhos velhos e acidentalmente algumas flores azuis.
"Eu estou aqui!" ela chiou. "Sou eu! Não se vão!"
Ela via a dama prateada brilhar ao longe. Setembro se esforçou tanto para vê-los, para alcançá-los, para correr mais rápido, só um pouquinho mais rápido. Vamos nos aproximar dela e beliscar seus calcanhares, sussurrando em seu ouvido: Vamos lá, você pode mais que isso, você consegue alcançá-los, garota, você pode esticar os seus bracinhos um pouco mais!
E de fato ela conseguiu fazer mais que isso, subiu aquele campo íngreme com mais agilidade, esticou os seus bracinhos um pouco mais, foi se movimentando pela grama, mas acabou não vendo o murinho baixo e cheio de musgos que cruzava o campo repentinamente, até que ela tropeçou e caiu de cara em uma grama tão branca que parecia ter acabado de nevar, exceto pela diferença que este gramado estava fresco e com um cheiro maravilhosamente doce parecido com um sorvete de limão siciliano.
O seu livro acabou esquecido nas gramas repentinamente vazias do nosso mundo. E um vento inesperado, cheirando levemente a várias coisas verdes como hortelã, alecrim e feno fresco virava as páginas rapidamente como se estivesse com pressa para saber o final.
A mãe de Setembro saiu de casa, procurando por sua filha com os olhos inchados de lágrimas. Mas não havia mais uma garota no campo de trigo, apenas 3 livros novos em folha, um punhado de caramelos ainda em sua embalagem de cera e um par de corvos voando, grasnando atrás de um barco a remo que já tinha desaparecido de suas frentes.
Atrás de sua mãe, o rádio de nogueira estalou e cuspiu.

(Fim do primeiro capítulo)

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