14 de dezembro de 2020

Tradução Livre - Capítulo II

Este capítulo foi gentilmente traduzido por Mariana Sayuri

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Capítulo 2

Sombras da floresta

Em Que Setembro Descobre Uma Floresta De Vidro, Aplica Habilidades Extremamente Práticas a Esta, Encontra Uma Cervo Um Tanto Não Amigável, e Descobre Que Algo Terrível Aconteceu Na Terra das Fadas.

Setembro olhou para cima do vidro pálido. Levantou-se estremecida, esfregando seu queixo machucado. A borda entre nosso mundo e a terra das fadas não foi gentil com ela desta vez, uma garota sozinha, sem um protetor vestido de verde para empurrá-la por todos os postos de controle sem nenhum dano. Setembro limpou seu nariz e olhou ao redor para ver onde havia se metido.

Uma floresta se estendia ao seu redor. O sol forte da tarde brilhava sobre ela, transformando cada galho em chamas e ouro e cintilante prismas roxos –uma vez que cada árvore alta era feita de torcido, balançante, selvagem e granuloso vidro. Raízes de vidro saiam e mergulhavam na terra nevada; folhas de vidro moviam e tiniam umas contra as outras como pequenos sinos de trenós. Luminosos pássaros rosa lançavam-se para apanhar frutinhos com seus bicos verdes e redondos. Eles trinavam seus triunfos com profundas vozes contralto, que soavam nada mais do que Pegueipegueipeguei e Meninaestranhameninaestranha! Que desolado e frio e lindo lugar aqueles pássaros viviam! Branca e enrolada vegetação rasteira crescia ao redor de nodosos e impetuosos carvalhos. Orvalho envidraçado estremecia pelas folhas e musgo de vidro quebrava-se delicadamente sobre seus pés. Em ninhadas aqui e ali, pequenas flores de vidro azul-prateadas floresciam de dentro de anéis de cogumelos de vidro vermelho-dourados.

Setembro riu. Estou de volta, oh, estou de volta! Ela girou com os braços abertos então cobriu sua boca – sua risada ecoou estranhamente pela floresta de vidro. Na realidade, ela até gostou, era como falar em uma concha. Oh, estou aqui! Eu realmente estou aqui e esse é o melho presente de aniversário!

“Alu, Terra das fadas!” ela gritou. Seu eco respingou pelo ar como tinta luminescente.

Meninaestranha! Meninaestranha! Responderam os passarinhos verde e rosa. Conseguiuconseguiu!

Setembro riu novamente. Ela estendeu-se a um galho baixo onde um dos pássaros a estava assistindo com seus curiosos olhos envidraçados. Ele estendeu uma garra iridescente para ela.

“Alu, pássaro.” ela disse alegremente. “Eu voltei e tudo está tão estranho e maravilhoso como eu me lembro! Se as garotas da escola pudessem ver esse lugar, isso ia calá-las logo, eu não ligo contar pra você. Você pode falar? Pode me contar tudo o que aconteceu desde que parti? Está tudo adorável agora? As fadas voltaram? Há danças todas as noites e potes de cacau em cada mesa? Se você não puder falar, tudo bem, mas se puder, você deve! Falar é assustadoramente divertido, quando você está contente. E eu estou tão contente! Oh, eu estou, Pássaro. Contente como nunca!” Setembro riu uma terceira vez. Depois de tanto tempo guardando e cuidando silenciosamente de seu segredo, todas essas palavras borbulharam de dentro dela como champanhe dourado.

Mas o riso parou em sua garganta. Talvez ninguém mais teria visto tão rapidamente, ou teria ficado tão assustado com a visão, tendo vivido com algo assim ela mesma, por tanto tempo.

O pássaro não tinha sombra.

Ele inclinou a cabeça para ela, e se podia falar, decidiu não falar. Alçou voo para caçar uma minhoca de vidro ou árvore. Setembro olhou para os prados congelados, as encostas, os cogumelos e as flores. Seu estômago revirou-se e se escondeu de baixo de suas costelas.

Nada tinha sombra. Nem as árvores, nem a grama, nem os lindos peitos verdes dos outros pássaros a assistindo, perguntando-se qual seria o problema.

Uma folha de vidro caiu e flutuou lentamente para o chão, sem projetar sombra por debaixo dela.

A pequena e baixa parede em que Setembro havia tropeçado corria tão longe quanto ela podia ver em ambas direções. Musgo pálido e azulado saía de cada rachadura em sua face escura como cabelos embaraçados. As profundas pedras de vidro brilhavam. Veias de cristal branco passavam por elas.

A floresta de reflexos a banhavam com dobrada e triplicada luz, pequenos arco-íris e longos cumprimentos de laranja ensanguentado. Setembro fechou seus olhos várias vezes e os abriu novamente, só para ter certeza, só para estar certa de que estava de volta à Terra das Fadas, que ela não havia simplesmente endoidado com a queda. E então, uma última vez, para ter certeza de que as sombras não estavam lá. Um longo e alto suspiro esguichou dela. Suas bochechas brilharam tão rosadas quanto os pássaros acima e as folhas das pequenas folhas de vidro de bordo.

E mesmo com a sensação de algo errado se espalhando por toda a floresta sem sombra, Setembro não pode evitar ainda se sentir cheia e aquecida e feliz. Ela não podia evitar correr sua mente por um maravilhoso pensamento, novamente e novamente, como uma lisa e brilhante pedra: Estou aqui, estou em casa, ninguém me esqueceu, e eu ainda não tenho oitenta anos!

Setembro girou de repente, procurando por A até L e Sábado e Gleam e Vento Verde. Com certeza, eles souberam que ela estava vindo e viriam encontrá-la. Com um enorme piquenique e novidades e velhas piadas. Mas ela se encontrou sozinha, exceto pelos passarinhos rosados olhando curiosamente para a barulhenta coisa de repente tomando espaço em sua floresta, e algumas nuvens amarelas no céu.

“Bom,” Setembro explicou timidamente aos passarinhos, “Eu suponho que seria pedir demais, ter tudo arranjado como uma festa de chá pra mim, com todos meus amigos aqui, me esperando!” Um grande pássaro macho assoviou, balançando suas esplêndidas penas da cauda. “Eu espero estar em alguma excitante província externa da Terra das Fadas e terei que encontrar meu caminho sozinha. O trem não deixa você na porta da sua casa, sabe! Você, às vezes, tem que pegar uma carona com alguém, gentilmente!” Um passarinho menor com um respingo de preto em seu peito a olhou, duvidoso.

Setembro lembrou-se que Pandemonium, a capital da Terra das Fadas, não ficava em um só lugar. Ela se movia bastante para satisfazer a necessidade de qualquer um que a estivesse procurando. Ela apenas teria que se comportar como uma heroína o faria, parecer resoluta e verdadeira, brandir algo bravamente, e certamente ela se encontraria de volta aqueles maravilhosos túneis mantidos pelo golem de sabão Lye, mantendo-se limpa e pronta para entrar na grande cidade. A até L estaria vivendo em Pandemonium, Setembro supôs, trabalhando alegremente para seu avô, a Biblioteca municipal da Terra das Fadas. Sábado estaria visitando sua avó, o oceano, todo verão, e ocupado crescendo, assim como ela. Ela não sentia nenhuma preocupação em relação a isso. Eles estariam juntos em breve. Eles descobririam o que havia acontecido às sombras da floresta, e

eles resolveriam tudo à tempo para janta da mesma forma que sua mãe resolvia as intermináveis tossidas do carro do Senhor Albert.

Setembro partiu com uma postura reta, seu vestido de aniversário enrugando-se com a brisa. Era o vestido da sua mãe, em realidade, impiedosamente abainhado até que coubesse nela, em um belo tom de vermelho que poderia quase ser chamado de laranja, e Setembro chamava. Ela brilhava ligeiramente na floresta de vidro, uma pequena chama caminhando pela grama branca e translúcidos troncos. Sem sombras a luz parecia capaz de atingir todos os lugares. A luminosidade do chão da floresta forcava Setembro a semicerrar os olhos. Mas assim que o sol afundou-se como um peso escarlate do céus, a madeira esfriou e as árvores perderam suas cores espetaculares. Por todo redor seu mundo ficou tão azul e prata quanto as estrelas e a lua que sobressaíram cada vez mais enquanto ela andava – Muito resoluta, muito corajosa, mas muito sem encontrar Pandemonium.

O golem de sabão amava a Marquesa, entretanto, Setembro pensou. E a Marquesa havia-se partido. Eu a vi cair em um sono profundo; Eu vi a Pantera das Tempestades Violentas a carregarem para longe. Talvez não haja mais túneis para lavar sua coragem. Talvez não haja Lye. Talvez Pandemonium fique em apenas um lugar agora. Quem sabe o que aconteceu com a Terra das Fadas desde que eu estive estudando álgebra e passando sábados à beira do fogo.

Setembro procurou ao redor, pelos pássaros rosa, aos quais se sentia bastante apegada, uma vez que eram sua única companhia, mas eles haviam-se partido para seus ninhos. Ela se esforçou para ouvir corujas mas nenhuma piou para preencher a noite silenciosa. Luz leitosa da lua derramou-se pelos carvalhos de vidro, e os olmeiros de vidro, e os pinheiros de vidro.

“Eu suponho que terei que passar a noite,” Setembro suspirou, e estremeceu, pois seu vestido de aniversário era primaveril e não feito para dormir no chão frio. Mas ela era mais velha agora do que havia sido quando aterrissou na costa da Terra das Fadas, e preparou-se para a noite sem reclamações. Procurou por um bom trecho de grama cercado por uma delicada cerca de bétulas de vidro, protegida em três lados, e decidiu fazer dele a sua cama. Setembro juntou vários pequenos gravetos de vidro e os empilhou juntos, removendo a maior parte da grama de cheiro de limão abaixo deles. Terra preto-azulada apareceu, e ela sentiu o cheiro de fresca e rica poeira. Ela descascou cascas de vidro e deitou as cascas encaracoladas contra os gravetos, para fazer uma pequena pirâmide de vidro. Ela calçou o vidro seco em seus gravetos e julgou-o um trabalho aceitável - se ao menos ela tivesse fósforos.

Setembro havia lido sobre cowboys e outras pessoas interessantes usando duas pedras para fazer fogo, embora ela continuasse duvidosa de que tivesse toda informação necessária sobre isso. Ainda assim, ela procurou duas boas, lisas e negras pedras, não vidro, mas pedras reais, e bateu-as com força, uma contra a outra. Fizeram um barulho aterrador que ecoou por toda a floresta, como um osso quebrando-se. Setembro tentou de novo, e de novo não conseguiu nada além de um alto barulho que vibrou em suas mãos. Na terceira batida, ela errou e acertou um de seus dedos. Chupou-o dolorosamente. Não ajudava considerar que o problema de fazer fogo era uma constante na história da humanidade. Este não era um local humano - não poderia ela encontrar uma moita que dava bons e gordos cachimbos ou flores de caixas de fósforo, ou melhor ainda, um tipo de feiticeiro que poderia acenar para ela e criar uma chama crepitante com uma panela de sopa sob ela, para variar?

Ainda cuidando de seu dedo, Setembro olhou pela fina névoa e viu um brilho na noite, no espaço entre as árvores. Queimava em vermelho e laranja.

Fogo, sim, e não longe!

“Tem alguém ai?” chamou Setembro. Sua voz soou fina na floresta de vidro.

Depois de um longo momento, uma resposta veio. “Alguém, talvez.”

“Eu vejo que você tem algo vermelho e laranja e flamejante, e se você pudesse ser gentil, eu poderia usar um pouco pra me manter aquecida e cozinhar minha refeição, se eu puder achar algo de comer aqui.”

“Você é um caçador, então?” disse a voz, e a voz era cheia de medo e esperança e desejo e ódio de uma forma que Setembro nunca ouvira antes.

“Não, não!” ela disse, rapidamente. “Bom, eu matei um peixe uma vez. Então talvez eu seja um pescador, embora eu não chamaria alguém que só fez pão uma vez de padeiro! Eu só pensei que talvez pudesse fazer uma sopa com algumas batatas de vidro ou grãos de vidro que eu encontrar, se tiver muita sorte. Eu planejava usar uma folha grande como copo para cozinhar. É de vidro, eu vejo, então não queimaria, se eu tivesse cuidado.” Setembro sentiu-se orgulhosa de sua inventividade – muitas coisas estavam faltando em seu plano, devidamente batatas ou grãos ou maçãs, mas o plano em si estava sólido em sua cabeça. O fogo era prioridade; o fogo mostraria à floresta sua coragem.

O brilho vermelho e flamejante chegou perto e perto até que Setembro pudesse ver que era na realidade um pequeno cisco de um pequeno carvão de dentro de um cachimbo com um grande fornilho. O cachimbo pertencia a uma jovem garota que o segurava entre seus dentes. A garota tinha cabelos brancos, brancos como a grama. A luz da lua o transformava em azul prateado. Seus olhos se mostravam escuros e um tanto grandes. Suas roupas eram todas de um pelo suave e pálido e cascas de vidro, seu cinto era uma cadeia de duras pedras violeta. Os grandes olhos escuros da garota mostravam profunda preocupação.

E das dobras de seus cabelos pálidos, dois curtos, macios chifres ramificavam, e duas longas, macias, pretas orelhas sobressaiam, parecidas com a de um cervo, seus interiores reluzindo limpos e lavanda na noite. A garota olhou Setembro sem pressa, sua suave face preocupada, procurou fingimento. Ela sugou longamente o cachimbo. Ele brilhou vermelho, laranja, vermelho novamente.

“Meu nome é Taiga,” ela disse finalmente, apertando o cachimbo nos dentes e estendendo uma mão. Ela usava uma luva de linho com os dedos cortados. “Vocênãoligue pra essa bagunça.” A garota estranha apontou com a cabeça para as peças solitárias do acampamento de Setembro. “Venha comigo para a colina e eu vou te alimentar.”

Setembro deve ter parecido acometida, pois Taiga apressou-se em acrescentar. “Oh, teria sido um bom fogo, garota, sem dúvida. Alta habilidade manual. Mas você não vai encontrar comida por aqui, e há sempre caçadores em todo lugar, só procurando por... bom, procurando atirar em uma esposa para eles, se você perdoa meu palavreado.”

Setembro conhecia um número de palavrões, a maioria havia ouvido as garotas da escola dizendo nos banheiros, em vozes apressadas, como se as palavras pudessem fazer coisas acontecerem só por serem ditas, como se fossem palavras mágicas, e tivesse que se lidar como tal. Ela não ouviu a garota-cervo usar nenhuma delas.

“Palavreado? Você quer dizer caçador?” Foi seu melhor chute, pois Taiga havia feito uma careta ao usá-la, como se a palavra doesse ao dizer.

“Nem.” disse Taiga, chutando a terra com uma bota. “Eu quis dizer esposa.”

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