16 de dezembro de 2020

Tradução Livre - Capítulo III



 
Capítulo III

A rena da Colina Moonkin (Moonkin Hill)

Em que Setembro considera o problema do casamento, aprende como viajar para a lua, come alimentos das fadas (de novo), ouve rádio e resolve consertar o Reino Encantado da melhor maneira possível

Setembro abraçou os cotovelos. Ela e Taiga tinham andado por algum tempo em silêncio. As estrelas desceram em direção ao amanhecer em suas caravanas cintilantes. Ela queria falar – a conversa fervia dentro dela como uma panela deixada de lado para sempre, sem ninguém se importar. Ela queria perguntar como as coisas no Reino Encantado tinham ficado desde que ela partiu. Ela queria perguntar onde ela estava em relação às Províncias de Outono ou em Gaol Solitário – norte, sul? Cem milhas? Mil milhas? Ela bem queria atirar os braços ao redor da menina-cervo, que era tão obviamente mágica, tão parecida como uma fada, rir e gritar, Você não sabe quem eu sou? Eu sou a garota que salvou o Reino Encantado!

Setembro corou na escuridão. Pois de repente lhe pareceu uma coisa bastante perversa de dizer, e ela o retirou sem sequer ter pronunciado aquilo. Taiga continuou enquanto o terreno ficava mais íngreme e as árvores de vidro começaram a receber amigos de madeira sólida e honesta, pretos e brancos. Ela não dizia nada, mas ela não dizia nada de uma forma particularmente direta, solene e deliberada que fez Setembro não dizer nada também.

Finalmente, a grama se tornou densa sobre um monte de terra, como se um elefante tivesse sido enterrado lá – e não o menor de sua espécie. Frutas grandes e brilhantes corriam por toda a colina, com suas videiras se arrastando pelo chão. Setembro não saberia dizer quais cores elas poderiam ser na luz do dia – por ora, elas ruborizavam um azul nevado cintilante.

“Vá em frente, pegue uma” Taiga disse e, pela primeira vez, ela sorriu um pouco. Setembro conhecia aquele sorriso. Era o sorriso que os fazendeiros usavam quando a colheita tinha sido boa e ela sabia disso, tão boa que vai levar todas as medalhas da feira do condado, mas as boas maneiras dizem que ela precisa parecer humilde na frente dos outros. “Os melhores moonkins do leste de Asphodel, e não deixe ninguém dizer o contrário. Eles não estarão aqui pela manhã, então devore-os enquanto eles estão amadurecidos.”

Setembro foi se rastejando até a parte de cima da colina e encontrou a menor das frutas, pequena o suficiente para que ninguém a chamasse de gananciosa. Ela a guardou em sua saia e começou a descer novamente – mas, Taiga começou a correr e passou em disparado por ela até o topo da colina. Deu um grande salto no ar, capotou e mergulhou direto na terra.

“Oh!” Setembro exclamou.

Não havia nada o que ser feito – ela seguiu Taiga até o alto da colina, abrindo caminho por entre os moonkins enormes e brilhantes. As videiras de vidro se emaranhavam por toda a parte, tropeçando entre os seus pés. Quando ela finalmente alcançou o cume, Setembro viu que a menina-cervo havia sumido. Alguém tinha feito um buraco no topo da colina, escuro e irregular com pedaços de raízes e pedras superficiais que a grama cobriu na sequência. Setembro o considerou grande o suficiente para uma garota, mas não para um homem.

Ao passo que ela gostaria de dar uma cambalhota e mergulhar como uma adorável ginasta, de cabeça para as profundezas, Setembro não sabia como girar daquela forma. Ela queria fazer, queria sentir o seu corpo girando no ar daquele jeito. Seu novo e desajuizado coração coração disse “Sem problemas! Nós conseguimos fazer isso! Mas, suas velhas e frágeis pernas não iriam obedecer. Ao invés disso, ela pôs a sua fruta empalidecida no bolso do vestido, apoiou as mãos no chão e inclinou o corpo para cima. Suas pernas nuas penduraram-se no ar que preenchia a colina. Setembro fechou os olhos com força, prendendo a sua respiração, segurando-se na grama até o último momento – e foi sugada pela terra úmida fazendo um leve ruído de sucção.

Ela caiu cerca de 1 metro.

Setembro abriu os seus olhos, primeiro um, depois o outro. Ela estava de pé sobre uma estante alta, e logo abaixo dessa havia outra ainda menor, e outra e outra, que resultava em uma pequena escadaria sinuosa de livros descendo do teto da catedral da colina Moonkin. Lá embaixo, havia várias meninas e meninos como Taiga que pararam de trabalhar para olhar a recém-chegada. Alguns deles teciam folhas de líquen em grandes cobertores. Alguns cozinhavam um ensopado cremoso, cheio de videiras Moonkin que tinha um cheiro estranho, mas não desagradável, parecido com hortelã e batatas fritas. Alguns usavam óculos e estavam preocupados com os livros contábeis, alguns reabasteciam o óleo em lindas lamparinas, outros relaxavam, soltando fumaça de seus cachimbos. O aconchego da cena dominou Setembro, cujos pés e dedos ainda formigavam de frio e enfraquecidos. Aqui e ali ela espiava tudo o que fazia aquela casa parecer viva: pinturas nas paredes, tapetes no chão, um aparador de porcelana e uma cadeira estofada que não combinava com mais nada. Cada um deles tinha os pés descalços e muito delicados.

“Atrevo a dizer que as portas são muito mais eficientes. ” Setembro ria enquanto abria caminho para descer. “Elas não são difíceis de serem feitas também. Não mais que dobradiças e maçanetas. ”

Taiga ergueu a mão para ajudar Setembro a descer a última prateleira.

“Caçadores podem usar as portas. Dessa forma, estamos seguros.”

“Você continua falando sobre caçadores! Não vimos nenhum pelo caminho até aqui e realmente, eu não posso acreditar que alguém caçaria uma garota! Eu não acho que garotas dariam um assado ou casacos muito bons.”

“Eles não querem nos matar,” Taiga disse sombriamente. “Eles querem se casar conosco. Nós somos Hreinn.”

Setembro mordeu o lábio. Em casa, ela se acostumou a saber de coisas que ninguém mais sabia. Era uma sensação boa. Quase tão boa quanto ter um segredo. Agora ela estava de volta ao país que não sabia coisa alguma.

Taiga suspirou. Ela tirou as suas botas e suas luvas e o seu casaco e guardou-os ordenadamente na cadeira que não combinava com nada. Ela respirou fundo e puxou as suas orelhas de cervo. Todo o seu corpo rodopiou em uma sombra que se projetou subitamente - e então diante de Setembro não estava mais uma menina, mas uma pequena rena com pelos pretos e manchas brancas na testa, um nariz grande e úmido e chifres grandes, felpudos e pesados. Ela era um pouco menor do que Setembro esperava que uma rena fosse, grande o suficiente para olhá-la nos olhos, mas não o suficiente para fazê-la sentir medo. Ainda que Taiga não fosse fofinha ou encantadora como as renas de revistas de Natal - em vez disso, os músculos se moviam sob sua pele, e tudo em sua forma esguia e graciosa exprimiam velocidade e força e um tipo de emoção selvagem em morder as coisas. Taiga virou a cabeça e prendeu as suas orelhas com os dentes, puxando-as com força, e em sua elegante forma de rena rodopiou-se para baixo em uma poça escura. A garota com cabelos brancos e orelhas pretas se postou diante de Setembro novamente.

E então, vagarosamente, Taiga pôs a poça em seus braços. Era preta e de pelos macios. Ela a segurava com muito amor.

“Esta é a minha pele, entende?” Taiga suspirou. “Quando nos tornamos humanos, nós ficamos com essa pequena peça de rena que sobra. Não apenas os cervos, sabe? Os cervos são fofoqueiros, brincalhões e ladrões horríveis. Renas! Hreinn. As renas não são daqui, entende? Viemos dos céus - a lua é nossa pátria mãe. ”

“Mas, ninguém pode morar na Lua!” disse Setembro. “É muito frio e não tem ar. Eu estou num clube de astronomia e a senhora Gilbert foi bastante específica nisso.”

“Sinto muito sobre a sua Lua - mas que planeta triste e pobre! Vamos guardar um lugar para ela no jantar, em respeito. Nossa Lua é rica e alegre. Com campos de arroz e com campos cobertos de moonkin até onde as suas vistas alcançam. E os Hreinn gostam de esporos cobertos de musgos aos montes que se espalham à distância. E tem os caçadores. E todo o tipo de Fadas, Sátiros, Corações Azulados, Goblins do Gelo. Uma vez que a lua foi generosa o suficiente para todos nós. Em nossos corpos de rena, corremos e nos escondemos dos comerciantes de peles e arqueiros famintos. Isso era ótimo. É assim que a Lua faz o jogo - ela é uma matrona dura e selvagem. Nós comemos e eles comem. Crescer rápido e inteligentes foram nossas canções de ninar. Fuja da panela do caçador hoje, ponha sua própria mesa amanhã. Entretanto, assim que os caçadores nos viram se transformar, eles descobriram o nosso segredo e acabaram querendo mais do que um ensopado. Eles roubaram as nossas peles e esconderam-nas, e quando um humano tem a sua pele, você é obrigada a ficar e cozinhar e limpar e bajulá-los até que envelheçam e morram. E mesmo depois disso, pode ser que você não consiga encontrar a sua pele novamente, sendo necessário queimar a cabana para pegá-la flutuando entre as cinzas. Eles nos perseguiram durante todo o caminho até o Reino Encantado desde os céus até a floresta e, mesmo assim, conseguimos nos esconder deles. ”

“Você está limpando e cozinhando agora,” disse Setembro timidamente. Um menino Hreinn ergueu os olhos da massa de pão, com as suas orelhas pontudas cobertas de farinha. Ela lembrou-se das selkies* que leu numa tarde enquanto tinha que aprender sobre diâmetros e circunferências: lindas focas com suas peles manchadas, virando mulheres e vivendo longe do mar. Ela pensou em uma estrada para a lua, iluminada por postes de luzes peroladas. Foi tão maravilhoso e terrível que suas mãos tremeram um pouco.

“Nós cozinhamos para nós comermos. Limpamos para nós apreciarmos o brilho do chão,” Taiga vociferou. “É diferente. Quando você constrói uma casa boa e forte por ser a sua casa, um lugar que você fez, um lugar do qual se orgulha, não é o mesmo que deixá-la brilhando para alguém que lhe ordenou a fazer isso. Como de costume um caçador quer devorar uma rena. Mas, aqui em Hill nós estamos salvos. Nós cultivamos os moonkins e eles nos alimentam; nós amamos a floresta e ela nos ama em seu jeito rude - o vidro brilha e corta, mas você não pode pedir para ele fazer uma coisa e não outra. Nós cuidamos de nós mesmos e só vamos à Asphodel quando precisamos de novos livros para ler. Ou quando um estranho caminha pisando tão forte que alguém precisa sair e ver quem está fazendo barulho.”

Setembro sorriu com tristeza. “Suponho que todo esse barulho seja por minha causa. Acabei de chegar no Reino Encantado, e é difícil fazer uma viagem dessas em silêncio.” Ela se apressou em corrigir-se, para que não pensassem que ela era uma simples ingênua. “Quer dizer, eu já estive aqui antes, até o Pandemônio e além. Mas eu tive que ir embora, e agora que estou de volta, não quero causar problemas para vocês, posso limpar o meu chão muito bem, mesmo que eu reclame de fazê-lo. Embora eu ache que reclamaria ainda que fosse a minha própria casinha querida e não dos meus pais, porque no geral eu sempre vou preferir ler e pensar a pegar o polidor de madeira, que cheira a algo horrível. Sinceramente e verdadeiramente, eu só quero saber onde estou - não sou um caçador, não quero me casar por um bom tempo ainda. E de qualquer forma, de onde venho, se um sujeito quer se casar com uma garota, ele são educados,  cortejam e pedem a mão ao invés de capturarem. "

Taiga coçou a sua bochecha. “Você quer dizer que ninguém persegue e ninguém é perseguido? Que uma coelha pode se casar com quem quiser e ninguém vai pular sobre ela à noite para fazer a escolha por ela? E que se você quiser, poderia viver sozinho a vida toda sem ninguém te olhar feio? "

Setembro mordeu o interior do lábio. Pensou na Srta. Gilbert que ensinava francês e dirigia o clube de astronomia, e como foi escandaloso quando descobriram que ela e o Sr. Henderson, o professor de matemática, pretendiam fugir juntos. O professor Henderson tinha uma boa quantia de dinheiro e de bens, casas e carros grandes; ele só ensinava matemática, porque gostava de fazer contas. A família do senhor Henderson proibiu o romance. Eles acabaram encontrando uma garota em St. Louis com um lindo cabelo ruivo para ele e disseram-lhes para se casarem. A senhorita Gilbert ficou com o coração partido, mas ninguém discutiu com os Hendersons, e foi a partir daí que o clube de astronomia teve início. Os Hendersons eram caçadores e, sem dúvida, eles capturaram a bela moça de St. Louis com as habilidades que tinham. Então, Setembro pensou na pobre Sra. Bailey, que nunca se casou com ninguém ou teve filhos, mas vivia em uma casinha cinza com a Sra. Newitz, que nunca tinha se casado também. Elas faziam geléias, fiavam linhas e criavam galinhas, o que Setembro achava bastante agradável. Mas todos gargalhavam e sentiam pena delas, pois consideravam aquilo um desperdício. E o Sr. Graves que perseguiu a Sra. Graves por toda a cidade cantando as suas canções de amor e comprando para ela as coisas mais idiotas: margaridas roxas, favos de mel, um cãozinho de caça até que ela aceitou o anel e lhe disse sim, o que certamente parecia um tipo de caçada.

Mesmo assim, Setembro não conseguiu fazer com que as contas batessem. Era e não era a mesma coisa. Pois, ela também pensou na sua mãe e no seu pai, e como eles tinham se encontrado na biblioteca, pois ambos gostavam de ler peças ao invés de assisti-las. “Você pode fazer as produções mais luxuosas de graça em sua cabeça” sua mãe dizia. Talvez, se uma caçada tivesse existido ali, foi no momento que eles se perseguiram por entre as pilhas de livros, enviando tiros de aviso de Shakespeare na cabeça um do outro.

“Eu acho,” ela disse lentamente, somando e subtraindo casais em sua cabeça, “que, no meu mundo, as pessoas concordam com uma espécie de temporada de caça, quando se trata de casamento. Alguns aceitam ser caçados e outros aceitam ser caçadores. E alguns não aceitam ser qualquer coisa, isso é terrivelmente difícil, mas eles acabam sabendo muito sobre Dog Stars e equinócios e como obter todas as sementes de roseira brava para uma gelatina. É estranho para mim como isso funciona, quem é quem, mas espero um dia entender. E estou absolutamente certa que quando chegar a hora, eu não serei a caça ”Setembro acrescentou suavemente. “De qualquer forma, eu nunca caçaria você - e eu nem teria dado uma mordida em sua colheita se você não tivesse me convidado. Eu só quero saber onde estou e quão longe o Pandemônio é daqui, e quanto tempo se passou desde que eu parti! Se eu perguntasse sobre a marquesa, você saberia de quem estou falando?”

Taiga assobiou baixinho. Visto que a donzela-rena retirou a sua pele e não imediatamente levada para uma capela, vários Hreinn consideraram Setembro alguém de confiança. Eles enrolaram-se em seus corpos de renas e estavam agora deitados, mostrando seus lados macios e chifres bonitos. “Isso foi um mau negócio”, disse Taiga coçando a cabeça.

"Sim mas . . . história antiga ou eventos atuais? ” Setembro pressionou.

“Bem, da última vez que ouvi falar, ela estava na Paróquia da Primavera. Espero que ela fique lá por um bom tempo. Neep e eu” - ela apontou para o menino salpicado de farinha - “Uma vez fomos ao cinema na cidade e vimos um rolo sobre isso. Ela estava deitada em seu caixão de turmalina com seu gato preto de guarda e pétalas caindo por toda parte, dormindo profundamente, nem um dia mais velha de quando ela abdicou.”

“Ela não abdicou” disse Setembro indignada. Ela não pode evitar. Não foi assim que aconteceu. A abdicação seria uma coisa amigável, quando uma pessoa diz que não quer mais mandar em nada e manda tudo às favas, agradecendo gentilmente a todos pelo trabalho. Eu a derrotei. Você não vai acreditar em mim, mas eu a derrotei. Ela induziu o próprio sono para escapar de eu mandá-la de volta de onde ela veio. Eu sou Setembro. Eu sou . . .Eu sou a garota que salvou o Reino Encantado."

Taiga a olhou da cabeça aos pés. Neep também. E suas caras diziam “Vá em frente, conta outra! Você não pode nem mesmo se transformar em uma rena. Você é capaz de alguma coisa?!”

“Bem, já faz alguns anos, respondendo à sua pergunta”, Taiga finalmente falou. “O rei Crunchcrab criou um feriado. Eu acho que é em Julho.”

“Rei Crunchcrab? Charlie Crunchcrab?”Setembro gritou de alegria com o nome do barqueiro que uma vez, não muito tempo atrás, dirigiu o barco que a levou até o Pandemônio.

"Ele não gosta que o chamemos assim, na verdade", Neep a silenciou. “Quando ele pega o rádio, ele nos diz: 'Não é um marquês e não é um rei, e ninguém consegue tirar esses vestidos de babados do meu armário, mas que droga'. Ainda assim, ele é um boa pessoa, mesmo resmungando sobre ter que usar a tiara. O povo achava que uma Fada deveria se mudar para o Briary, depois de tudo que aconteceu. Mas ele foi o único que eles conseguiram capturar. ”

Setembro afundou em um sofá cor de café. Ela cruzou as mãos e se preparou para ouvir o que suspeitava que tinha acontecido, mas esperava que não. “E as sombras, Taiga? E as sombras? ”

Taiga desviou o olhar. Ela foi até a sopa e mexeu-a vigorosamente, raspando os pedaços de crostas saborosas da panela e deixando-os flutuar até o topo. Ela encheu uma tigela e a empurrou para Setembro. 

"Isso não vai ser ouvido de estômago vazio. Coma e quebre o seu moonkin também, antes que o sol nasça. Eles são melhores à noite. E eles vão murchar assim que clarear. ”

Por um momento, Setembro não quis comer. 

Ela foi dominada pela lembrança de temer a comida das Fadas, tentando evitá-la e morrer de fome bravamente, como ela havia feito antes, quando o Vento Verde disse que uma mordida a manteria aqui para sempre. Foi instintivo, como tirar a mão do fogo. Mas, é claro, o dano já estava feito há muito tempo, e como ela estava feliz com isso! Portanto, Setembro comeu, e o guisado tinha o mesmo gosto do qual cheirava: de hortelã-pimenta e boas batatas e algo mais além, doce e leve como marshmallows, mas muito mais saudável. Deveria ter um gosto horrível, pois quem já ouviu falar de misturar essas coisas? Mas, em vez disso, deixou Setembro cheia e enraizou o seu coração direto na terra, onde poderia permanecer forte. E esse sabor era ainda melhor: como uma abóbora, mas um tipo de abóbora muito macia e melancólica que se tornara boa amiga de maçãs verdes frescas e peras frias de inverno.

Por fim Taiga retirou a tigela dela, estalou a língua e disse: “Venha até a lareira, garota. Você vai ver que eu não estava escondendo nada de você. Eu só queria que você comesse primeiro, para assim ficar mais forte. "

Todos os Hreinn se reuniram, alguns em forma de rena e outras humanas, pelas extremidades do grande corredor da colina. 

Havia uma grande coisa coberta com lona esperando ali, mas sem fogos, tijolos ou brasas. Neep puxou o tecido - e um rádio brilhou na parede. 

Não se parecia em nada com o rádio de nogueira da sua casa. Este era feito de galhos de madeira preta e de vidro, alguns deles ainda em flor, mostrando flores de vidro flamejantes, como se o sol de alguma forma ainda brilhasse através deles. Os botões eram cogumelos verdes duros e a grade era feita de folhas de cenoura. Taiga se inclinou para frente e girou os cogumelos até que um estalo encheu o ar e a Hreinn se aproximou para ouvir.

“Esse foi o resumo da noite do Serviço de Notícias do Reino Encantado” e falou uma agradável voz masculina, jovem e gentil. Oferecido pela Associação de Serviços Jornalísticos do Reino das Fadas e da Loja de roupas de inverno da Belinda Repolho, trazendo a você todas as novidades do Equipamento Científico Louco. Nós aqui no Bureau estendemos nossas mais profundas condolências aos cidadãos de Pandemônio e especialmente a Nosso Charlie, que perdeu suas sombras hoje, contabilizando seis condados e um guarda esta semana. Se vocês pudessem me ver, ouvintes leais, veriam meu boné contra meu peito e uma lágrima em meus olhos.Repetimos nosso apelo ao bom povo do submundo do Reino Encantado, e imploramos que cessem as hostilidades imediatamente. Em outras notícias, as rações caíram pela metade e novas passagens podem ser coletadas nas estações municipais. Lamentamos profundamente o Rei C por esse motivo, mas agora não é hora de temer, mas de nos unirmos e nos esforçarmos da melhor maneira possível. Mantenham a calma e sigam em frente, bons amigos. Mesmo sem sombras, devemos perseverar. Boa noite e boa saúde. ”

Uma melodia diminuta começou, algo com flauta inglesa, banjo e um tambor suave. Taiga desligou o rádio.

“O objetivo é sintonizar-se com você, para encontrar a estação que tem a música ou as notícias que você deseja ouvir. Direto do Repolho, e esse é o melhor que existe. ” Taiga deu um tapinha no joelho de Setembro. “É do submundo do Reino Encantado, todo o conhece. As sombras simplesmente penetram no solo e desaparecem. Eles estão roubando nossas sombras e sabe se lá por quê? Para comer? Matar? Casar? Para pendurar nas paredes como cabeças de veado? O submundo do Reino Encantado está cheio de demônios e dragões, e entre eles existem os bons e ruins. "

Setembro se levantou e limpou uma semente de mookin que estava caída em seu vestido de aniversário. Ela olhou uma vez para cima, e o seu coração queria tanto os seus amigos Ell, o Draladoteca, e Sábado, o Marid, junto com ela que estava quase pulando de seu peito e indo sozinho atrás deles. Mas, seu coração ficou onde estava e ela voltou o rosto para Taiga, que não seria sua amiga afinal, não agora, quando ela ainda tinha um caminho tão longo a seguir. “Diga-me como entrar no submundo do Reino Encantado,” Setembro disse calmamente, com a dureza de uma garota muito mais velha.

“Por que você iria lá?” Neep disse de repente, com a voz alta e apreensiva. “É terrível. É escuro e não há lei alguma e os Dodos simplesmente se rebelaram lá embaixo, como ratos. E. . . ” ele baixou a voz para um guincho, "o Soldado Alemão mora lá." O outro Hreinn estremeceu.

Setembro endireitou os ombros. “Eu vou recuperar as suas sombras, de todos vocês, e do Nosso Charlie também. E até mesmo a minha. Porque foi minha culpa, entende? Eu provoquei isso. E você deve sempre limpar as suas próprias bagunças, mesmo quando as suas bagunças se parecem com você e fazem uma reverência muito cruel quando querem dizer: eu vou criar problemas para todo o sempre. ” E então Setembro explicou a eles como ela havia perdido a sua sombra, como ela desistiu disso para salvar uma criança Pooka e deixou que um Goblin cortasse a sua sombra com uma terrível faca feita de ossos. Como a sombra se ergueu como uma garota e girou de uma maneira muito desconcertante. Ela contou a Taiga, Neep e os outros como o Goblin havia dito que eles a pegariam, amariam-na e a colocariam no topo de todos os desfiles, para assim mergulharem no reino que havia embaixo do rio, onde certamente seria o submundo do Reino Encantado. Embora ela não pudesse afirmar, Setembro tinha certeza de que sua sombra e as sombras de todos os outros eram parte do mesmo problema, e problemas deveriam ser resolvidos, custe o que custasse, especialmente se você tivesse sido o primeiro a criá-lo. Entretanto, Setembro não contou mais sobre os seus atos do que o necessário. No final das contas, mesmo que ouvissem que ela era boa com uma chave inglesa de fada pudesse deixá-los mais confiantes sobre ela, ela não seria capaz. Não era nada para se gabar, dado que ela deixou o Reino Encantado tão chateada por partir. Ela implorou a eles novamente para que lhe dissessem como chegar até aquele outro Reino Encantado; ela se arriscaria entre os caçadores que corriam tão desenfreados pela floresta.

“Mas Setembro, não é como se houvesse um alçapão e você simplesmente descesse”, insistiu Taiga. “Você tem que ver a Sybil. E por que fazer isso, por que ir ver aquela senhora horrível ao invés de ficar aqui conosco e comer moonkins e ler livros e tocar canções tristes nas raízes e ficar a salvo? ” A garota-rena olhou para seu rebanho e todos concordaram, alguns com rostos compridos e peludos, outros com rostos humanos magros e preocupados.

“Mas você deve ver que eu não posso fazer isso”, disse September. “O que o meu Draladoteca pensaria de minhas músicas tocando enquanto o Reino Encantado estiver sofrendo? Ou Calpurnia Farthing the Fairy Rider ou Mr. Map ou Sábado? O que eu pensaria de mim mesmo, no final das contas? ”

Taiga concordou tristemente, como se dissesse: Discutir com humanos só leva às lágrimas. Ela foi até uma das estantes, ficou na ponta dos pés e tirou um grande livro azul da última prateleira. 

“Estávamos guardando isso” ela explicou. “Mas para onde você estiver indo, irá precisar muito mais do que nós”.

E ela abriu as capas da meia-noite. Dentro, como um marcador de livro, havia um bloco de anotações quadrado fino e lindamente pintado, onde haviam sido deixados dois feixes de folha, tendo o resto sido arrancado e usado muito tempo antes. Sua lombada brilhava junto as páginas macias de cor creme e as suas beiradas filigranadas com prata e estrelada. Lia-se:

LIVRO DE PROVISÕES MÁGICAS


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14 de dezembro de 2020

Tradução Livre - Capítulo II

Este capítulo foi gentilmente traduzido por Mariana Sayuri

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Capítulo 2

Sombras da floresta

Em Que Setembro Descobre Uma Floresta De Vidro, Aplica Habilidades Extremamente Práticas a Esta, Encontra Uma Cervo Um Tanto Não Amigável, e Descobre Que Algo Terrível Aconteceu Na Terra das Fadas.

Setembro olhou para cima do vidro pálido. Levantou-se estremecida, esfregando seu queixo machucado. A borda entre nosso mundo e a terra das fadas não foi gentil com ela desta vez, uma garota sozinha, sem um protetor vestido de verde para empurrá-la por todos os postos de controle sem nenhum dano. Setembro limpou seu nariz e olhou ao redor para ver onde havia se metido.

Uma floresta se estendia ao seu redor. O sol forte da tarde brilhava sobre ela, transformando cada galho em chamas e ouro e cintilante prismas roxos –uma vez que cada árvore alta era feita de torcido, balançante, selvagem e granuloso vidro. Raízes de vidro saiam e mergulhavam na terra nevada; folhas de vidro moviam e tiniam umas contra as outras como pequenos sinos de trenós. Luminosos pássaros rosa lançavam-se para apanhar frutinhos com seus bicos verdes e redondos. Eles trinavam seus triunfos com profundas vozes contralto, que soavam nada mais do que Pegueipegueipeguei e Meninaestranhameninaestranha! Que desolado e frio e lindo lugar aqueles pássaros viviam! Branca e enrolada vegetação rasteira crescia ao redor de nodosos e impetuosos carvalhos. Orvalho envidraçado estremecia pelas folhas e musgo de vidro quebrava-se delicadamente sobre seus pés. Em ninhadas aqui e ali, pequenas flores de vidro azul-prateadas floresciam de dentro de anéis de cogumelos de vidro vermelho-dourados.

Setembro riu. Estou de volta, oh, estou de volta! Ela girou com os braços abertos então cobriu sua boca – sua risada ecoou estranhamente pela floresta de vidro. Na realidade, ela até gostou, era como falar em uma concha. Oh, estou aqui! Eu realmente estou aqui e esse é o melho presente de aniversário!

“Alu, Terra das fadas!” ela gritou. Seu eco respingou pelo ar como tinta luminescente.

Meninaestranha! Meninaestranha! Responderam os passarinhos verde e rosa. Conseguiuconseguiu!

Setembro riu novamente. Ela estendeu-se a um galho baixo onde um dos pássaros a estava assistindo com seus curiosos olhos envidraçados. Ele estendeu uma garra iridescente para ela.

“Alu, pássaro.” ela disse alegremente. “Eu voltei e tudo está tão estranho e maravilhoso como eu me lembro! Se as garotas da escola pudessem ver esse lugar, isso ia calá-las logo, eu não ligo contar pra você. Você pode falar? Pode me contar tudo o que aconteceu desde que parti? Está tudo adorável agora? As fadas voltaram? Há danças todas as noites e potes de cacau em cada mesa? Se você não puder falar, tudo bem, mas se puder, você deve! Falar é assustadoramente divertido, quando você está contente. E eu estou tão contente! Oh, eu estou, Pássaro. Contente como nunca!” Setembro riu uma terceira vez. Depois de tanto tempo guardando e cuidando silenciosamente de seu segredo, todas essas palavras borbulharam de dentro dela como champanhe dourado.

Mas o riso parou em sua garganta. Talvez ninguém mais teria visto tão rapidamente, ou teria ficado tão assustado com a visão, tendo vivido com algo assim ela mesma, por tanto tempo.

O pássaro não tinha sombra.

Ele inclinou a cabeça para ela, e se podia falar, decidiu não falar. Alçou voo para caçar uma minhoca de vidro ou árvore. Setembro olhou para os prados congelados, as encostas, os cogumelos e as flores. Seu estômago revirou-se e se escondeu de baixo de suas costelas.

Nada tinha sombra. Nem as árvores, nem a grama, nem os lindos peitos verdes dos outros pássaros a assistindo, perguntando-se qual seria o problema.

Uma folha de vidro caiu e flutuou lentamente para o chão, sem projetar sombra por debaixo dela.

A pequena e baixa parede em que Setembro havia tropeçado corria tão longe quanto ela podia ver em ambas direções. Musgo pálido e azulado saía de cada rachadura em sua face escura como cabelos embaraçados. As profundas pedras de vidro brilhavam. Veias de cristal branco passavam por elas.

A floresta de reflexos a banhavam com dobrada e triplicada luz, pequenos arco-íris e longos cumprimentos de laranja ensanguentado. Setembro fechou seus olhos várias vezes e os abriu novamente, só para ter certeza, só para estar certa de que estava de volta à Terra das Fadas, que ela não havia simplesmente endoidado com a queda. E então, uma última vez, para ter certeza de que as sombras não estavam lá. Um longo e alto suspiro esguichou dela. Suas bochechas brilharam tão rosadas quanto os pássaros acima e as folhas das pequenas folhas de vidro de bordo.

E mesmo com a sensação de algo errado se espalhando por toda a floresta sem sombra, Setembro não pode evitar ainda se sentir cheia e aquecida e feliz. Ela não podia evitar correr sua mente por um maravilhoso pensamento, novamente e novamente, como uma lisa e brilhante pedra: Estou aqui, estou em casa, ninguém me esqueceu, e eu ainda não tenho oitenta anos!

Setembro girou de repente, procurando por A até L e Sábado e Gleam e Vento Verde. Com certeza, eles souberam que ela estava vindo e viriam encontrá-la. Com um enorme piquenique e novidades e velhas piadas. Mas ela se encontrou sozinha, exceto pelos passarinhos rosados olhando curiosamente para a barulhenta coisa de repente tomando espaço em sua floresta, e algumas nuvens amarelas no céu.

“Bom,” Setembro explicou timidamente aos passarinhos, “Eu suponho que seria pedir demais, ter tudo arranjado como uma festa de chá pra mim, com todos meus amigos aqui, me esperando!” Um grande pássaro macho assoviou, balançando suas esplêndidas penas da cauda. “Eu espero estar em alguma excitante província externa da Terra das Fadas e terei que encontrar meu caminho sozinha. O trem não deixa você na porta da sua casa, sabe! Você, às vezes, tem que pegar uma carona com alguém, gentilmente!” Um passarinho menor com um respingo de preto em seu peito a olhou, duvidoso.

Setembro lembrou-se que Pandemonium, a capital da Terra das Fadas, não ficava em um só lugar. Ela se movia bastante para satisfazer a necessidade de qualquer um que a estivesse procurando. Ela apenas teria que se comportar como uma heroína o faria, parecer resoluta e verdadeira, brandir algo bravamente, e certamente ela se encontraria de volta aqueles maravilhosos túneis mantidos pelo golem de sabão Lye, mantendo-se limpa e pronta para entrar na grande cidade. A até L estaria vivendo em Pandemonium, Setembro supôs, trabalhando alegremente para seu avô, a Biblioteca municipal da Terra das Fadas. Sábado estaria visitando sua avó, o oceano, todo verão, e ocupado crescendo, assim como ela. Ela não sentia nenhuma preocupação em relação a isso. Eles estariam juntos em breve. Eles descobririam o que havia acontecido às sombras da floresta, e

eles resolveriam tudo à tempo para janta da mesma forma que sua mãe resolvia as intermináveis tossidas do carro do Senhor Albert.

Setembro partiu com uma postura reta, seu vestido de aniversário enrugando-se com a brisa. Era o vestido da sua mãe, em realidade, impiedosamente abainhado até que coubesse nela, em um belo tom de vermelho que poderia quase ser chamado de laranja, e Setembro chamava. Ela brilhava ligeiramente na floresta de vidro, uma pequena chama caminhando pela grama branca e translúcidos troncos. Sem sombras a luz parecia capaz de atingir todos os lugares. A luminosidade do chão da floresta forcava Setembro a semicerrar os olhos. Mas assim que o sol afundou-se como um peso escarlate do céus, a madeira esfriou e as árvores perderam suas cores espetaculares. Por todo redor seu mundo ficou tão azul e prata quanto as estrelas e a lua que sobressaíram cada vez mais enquanto ela andava – Muito resoluta, muito corajosa, mas muito sem encontrar Pandemonium.

O golem de sabão amava a Marquesa, entretanto, Setembro pensou. E a Marquesa havia-se partido. Eu a vi cair em um sono profundo; Eu vi a Pantera das Tempestades Violentas a carregarem para longe. Talvez não haja mais túneis para lavar sua coragem. Talvez não haja Lye. Talvez Pandemonium fique em apenas um lugar agora. Quem sabe o que aconteceu com a Terra das Fadas desde que eu estive estudando álgebra e passando sábados à beira do fogo.

Setembro procurou ao redor, pelos pássaros rosa, aos quais se sentia bastante apegada, uma vez que eram sua única companhia, mas eles haviam-se partido para seus ninhos. Ela se esforçou para ouvir corujas mas nenhuma piou para preencher a noite silenciosa. Luz leitosa da lua derramou-se pelos carvalhos de vidro, e os olmeiros de vidro, e os pinheiros de vidro.

“Eu suponho que terei que passar a noite,” Setembro suspirou, e estremeceu, pois seu vestido de aniversário era primaveril e não feito para dormir no chão frio. Mas ela era mais velha agora do que havia sido quando aterrissou na costa da Terra das Fadas, e preparou-se para a noite sem reclamações. Procurou por um bom trecho de grama cercado por uma delicada cerca de bétulas de vidro, protegida em três lados, e decidiu fazer dele a sua cama. Setembro juntou vários pequenos gravetos de vidro e os empilhou juntos, removendo a maior parte da grama de cheiro de limão abaixo deles. Terra preto-azulada apareceu, e ela sentiu o cheiro de fresca e rica poeira. Ela descascou cascas de vidro e deitou as cascas encaracoladas contra os gravetos, para fazer uma pequena pirâmide de vidro. Ela calçou o vidro seco em seus gravetos e julgou-o um trabalho aceitável - se ao menos ela tivesse fósforos.

Setembro havia lido sobre cowboys e outras pessoas interessantes usando duas pedras para fazer fogo, embora ela continuasse duvidosa de que tivesse toda informação necessária sobre isso. Ainda assim, ela procurou duas boas, lisas e negras pedras, não vidro, mas pedras reais, e bateu-as com força, uma contra a outra. Fizeram um barulho aterrador que ecoou por toda a floresta, como um osso quebrando-se. Setembro tentou de novo, e de novo não conseguiu nada além de um alto barulho que vibrou em suas mãos. Na terceira batida, ela errou e acertou um de seus dedos. Chupou-o dolorosamente. Não ajudava considerar que o problema de fazer fogo era uma constante na história da humanidade. Este não era um local humano - não poderia ela encontrar uma moita que dava bons e gordos cachimbos ou flores de caixas de fósforo, ou melhor ainda, um tipo de feiticeiro que poderia acenar para ela e criar uma chama crepitante com uma panela de sopa sob ela, para variar?

Ainda cuidando de seu dedo, Setembro olhou pela fina névoa e viu um brilho na noite, no espaço entre as árvores. Queimava em vermelho e laranja.

Fogo, sim, e não longe!

“Tem alguém ai?” chamou Setembro. Sua voz soou fina na floresta de vidro.

Depois de um longo momento, uma resposta veio. “Alguém, talvez.”

“Eu vejo que você tem algo vermelho e laranja e flamejante, e se você pudesse ser gentil, eu poderia usar um pouco pra me manter aquecida e cozinhar minha refeição, se eu puder achar algo de comer aqui.”

“Você é um caçador, então?” disse a voz, e a voz era cheia de medo e esperança e desejo e ódio de uma forma que Setembro nunca ouvira antes.

“Não, não!” ela disse, rapidamente. “Bom, eu matei um peixe uma vez. Então talvez eu seja um pescador, embora eu não chamaria alguém que só fez pão uma vez de padeiro! Eu só pensei que talvez pudesse fazer uma sopa com algumas batatas de vidro ou grãos de vidro que eu encontrar, se tiver muita sorte. Eu planejava usar uma folha grande como copo para cozinhar. É de vidro, eu vejo, então não queimaria, se eu tivesse cuidado.” Setembro sentiu-se orgulhosa de sua inventividade – muitas coisas estavam faltando em seu plano, devidamente batatas ou grãos ou maçãs, mas o plano em si estava sólido em sua cabeça. O fogo era prioridade; o fogo mostraria à floresta sua coragem.

O brilho vermelho e flamejante chegou perto e perto até que Setembro pudesse ver que era na realidade um pequeno cisco de um pequeno carvão de dentro de um cachimbo com um grande fornilho. O cachimbo pertencia a uma jovem garota que o segurava entre seus dentes. A garota tinha cabelos brancos, brancos como a grama. A luz da lua o transformava em azul prateado. Seus olhos se mostravam escuros e um tanto grandes. Suas roupas eram todas de um pelo suave e pálido e cascas de vidro, seu cinto era uma cadeia de duras pedras violeta. Os grandes olhos escuros da garota mostravam profunda preocupação.

E das dobras de seus cabelos pálidos, dois curtos, macios chifres ramificavam, e duas longas, macias, pretas orelhas sobressaiam, parecidas com a de um cervo, seus interiores reluzindo limpos e lavanda na noite. A garota olhou Setembro sem pressa, sua suave face preocupada, procurou fingimento. Ela sugou longamente o cachimbo. Ele brilhou vermelho, laranja, vermelho novamente.

“Meu nome é Taiga,” ela disse finalmente, apertando o cachimbo nos dentes e estendendo uma mão. Ela usava uma luva de linho com os dedos cortados. “Vocênãoligue pra essa bagunça.” A garota estranha apontou com a cabeça para as peças solitárias do acampamento de Setembro. “Venha comigo para a colina e eu vou te alimentar.”

Setembro deve ter parecido acometida, pois Taiga apressou-se em acrescentar. “Oh, teria sido um bom fogo, garota, sem dúvida. Alta habilidade manual. Mas você não vai encontrar comida por aqui, e há sempre caçadores em todo lugar, só procurando por... bom, procurando atirar em uma esposa para eles, se você perdoa meu palavreado.”

Setembro conhecia um número de palavrões, a maioria havia ouvido as garotas da escola dizendo nos banheiros, em vozes apressadas, como se as palavras pudessem fazer coisas acontecerem só por serem ditas, como se fossem palavras mágicas, e tivesse que se lidar como tal. Ela não ouviu a garota-cervo usar nenhuma delas.

“Palavreado? Você quer dizer caçador?” Foi seu melhor chute, pois Taiga havia feito uma careta ao usá-la, como se a palavra doesse ao dizer.

“Nem.” disse Taiga, chutando a terra com uma bota. “Eu quis dizer esposa.”

8 de dezembro de 2020

Tradução Livre - Capítulo I

Livro: The girl who fell beneath Fairyland and led the revels there

A garota que caiu embaixo do Reino Encantado e liderou a diversão por 

Capítulo I

Fuga em um barco a remo, perseguida por Corvos

Em que uma garota chamada Setembro guarda um segredo, passa por dificuldades na escola, faz 13 anos, e finalmente está perto de ser atropelada por um barco a remo,  encontrando assim o seu caminho para o Reino Encantado.

Era uma vez, uma garota chamada Setembro e ela tinha um segredo.
Sabe, segredos são coisas delicadas. Eles podem preencher com doçura e deixar você como um gato que encontrou um gordo pardal para comer sem se preocupar nenhuma vez com arranhões e bicadas, enquanto está a par disso. Mas, eles também podem ficar presos dentro de você e bem lentamente ferver os seus ossos para a suas sopas amargas. Assim, o segredo te tem na mão, não o contrário.
Então, nós devemos ficar muito agradecidos que Setembro tinha o melhor dos segredos e o levou consigo como uma par de luvas chiques que, quando ela estava com frio, ela poderia tirá-las e colocá-las novamente para se lembrar que os dias quentes se foram.

O segredo de Setembro era esse: ela tinha ido para o Reino Encantado.

Isso já aconteceu com outras crianças na história do mundo. Há muitos livros sobre isso, e durante muito tempo garotinhos e garotinhas tem lido-os e feito espadas de madeiras e centauros de papel, esperando por sua vez. Mas, para Setembro a espera acabou na primavera passada. Ela lutou contra uma rainha malvada e salvou o Reino todo de sua crueldade. Ela tinha feito amigos que, além de serem divertidos, corajosos e inteligentes, eram um Dragão, um Marid e uma lâmpada falante.

O único problema é que são poucos os livros sobre mosqueteiros que falam sobre o que fazer quando chegar em casa. Setembro mudou profundamente da menina que desesperadamente queria que essas coisas fossem reais para alguém que passou a saber que eram reais. Tal mudança pode ser comparada a conseguir uma nova cabeça, do que um novo corte de cabelo.

Isso não necessariamente melhorou sua vida escolar.

Onde Setembro parecia meramente e silenciosamente estranha, olhando para fora da janela durante as aulas de matemática e lendo grandes livros coloridos embaixo de sua mesa durante as aulas de direito. Agora as outras crianças notavam algo selvagem e alheio nela. As garotas da sala não conseguiam dizer o que Setembro tinha que as incomodavam. Se você sentasse com elas e perguntasse algo sobre isso, a melhor explicação que elas te dariam é "ela não é como nós."

E então elas não convidariam Setembro para festas de aniversários; elas não perguntariam sobre suas festas de verão. Elas roubariam seus livros e contariam mentiras sobre ela para os professores. "Setembro colou na prova de álgebra", elas afirmavam com sinceridade. "Setembro leu livros velhos e feios durante os exercícios físicos", "Setembro foi para trás do prédio de Química com os meninos". Elas riam pelas suas costas em tons que faziam surgir pontas espinhosas em todo redor de seus vestidos e cabelos cacheados com laços. Elas ficavam de pé dentro dessas pontas, e aos sussurros diziam que Setembro sempre ficaria do lado de fora.

Em contrapartida, Setembro guardou o seu segredo. Quando ela se sentiu horrível e sozinha e com frio, ela levaria isso embora e o sopraria como brasas, até que elas brilhariam novamente e a preencheriam: A-Até-L, seu Draladoteca, fungando no cheque azul de Sábado até ele rir, o Vento Verde marcando  seus sapatos esmeraldas de neve no trigo. Todos eles aguardavam que ela voltasse, qual ela faria - em breve, tão terrivelmente breve, a qualquer momento a partir de agora. Ela sentiu muito gosto por sua tia Margareth, que nunca parecia a mesma depois que retornava de suas viagens para a casa. Ela contava longas histórias sobre Paris e calças de seda e acordeões vermelhos e buldogues e ninguém a entendia particularmente. Mas, eles a ouviam educadamente até ela sumir, procurando-a pela janela bem como se ela pudesse ver o rio Sena fluindo em vez de acres após acres de trigo e milho. Setembro sentia que entendia a sua tia agora e decidiu ser especialmente atenciosa com ela em sua próxima visita.

Todas as noites, Setembro continuava. Ela lavava as mesmas rosa-e-amarela xícaras de chá que ela tinha sempre lavado, cuidava do mesmo pequeno e cada vez mais ansioso cachorro que ela cuidava, ouvia o pequeno rádio feito de madeira de nogueira sobre boletins da guerra, sobre o seu pai. O rádio assomava-se tão alto e enorme na sala deles que chegava a parecer como uma porta terrível, pronta para abrir a qualquer momento e deixar más notícias lá dentro. Assim como o sol se punha na longa pradaria amarela de cada dia, ela mantinha o olho aguçado em busca de um flash verde no horizonte, uma pele manchada brilhando na grama, uma certa risada, um certo purr. Mas, o outono tratou seus dias como um baralho de cartas douradas e ninguém apareceu.

Sua mãe tinha o domingo livre do seu trabalho na fábrica de aeronaves e, então, Setembro começou amar os domingos. Elas sentariam juntas confortavelmente perto do fogo e liam enquanto o cachorro mexia nos cadarços de seus sapatos ou sua mãe deslizava para dentro do miserável e velho modelo A do Sr. Albert e batia nele até Setembro pode virar a chave e poder ouvi-lo resmungar para a vida mais uma vez. Não faz muito tempo sua mãe lia em voz alta para ela um livro ou outro sobre fadas ou soldados ou pioneiros, mas agora elas liam amigavelmente, cada uma a sua própria novela ou jornal, exatamente como Setembro se lembrava de sua mãe fazendo com o seu pai, antes da guerra. Domingo foi o melhor dia, quando a luz do sol parecia brilhar para sempre, e Setembro florescia sob o grande e franco sorriso de sua mãe. No domingo ela não se machucou. Ela não sentiu falta de um lugar que ela nunca poderia explicar para um adulto. Ela não desejou que o seu pequeno jantar com a sua ração escassa de carne enlatada fosse um estranho banquete de doces e corações torrados e melões roxos cheio de vinho da chuva.

No domingo, ela quase não pensou mesmo no Reino Encantado.

Às vezes, ela considerava em contar para a sua mãe sobre tudo o que aconteceu lá. Às vezes, ela queria mesmo fazer. Mas, algo 
mais antigo e sábio lhe dizia: Algumas coisas são para guardar e esconder. Ela temia que se dissesse em voz alta sobre o que aconteceu tudo desapareceria, nunca mais existiria e explodiria como um algodão dente de leão. Mas e se nada tivesse sido verdadeiramente real? E se ela tivesse sonhado, ou pior, ela tivesse perdido a memória como aconteceu com a prima do seu pai na cidade de Iowa? Qualquer uma dessas opções seria tão horrível de considerar, mas ela não poderia considerar tudo a mesma coisa.
Sempre que ela tinha aqueles pensamentos obscuros que ela deveria ser apenas uma garota boba que lia vários livros, que ela deveria estar louca, Setembro olhava para trás e estremecia. Por ela ter provas de que tudo realmente aconteceu. Ela tinha perdido a sua sombra lá, em um rio distante, perto de uma cidade distante. Ela tinha perdido algo grande e verdadeiro e não poderia pegá-la de volta. E se ninguém notava que ela não projetava para frente ou para trás, Setembro não teria que dizer também. Mas enquanto o seu segredo permanecia secreto, ela sentia que poderia suportar tudo - as garotas na escola, os longos turnos da mãe, a ausência do seu pai. Ela poderia até suportar o rádio crepitando como um fogo sem fim.


Quase 1 ano tinha se passado desde quando Setembro voltou para casa do Reino Encantado. Sendo uma criança bastante prática, ela se tornou muito interessada em mitologia, desde suas façanhas no outro lado do mundo, estudando os costumes das fadas e dos deuses antigos e a monarquia hereditária e outros folclores mágicos. Por meio de suas pesquisas, ela raciocinou que foi mais ou menos um ano. Uma grande volta completa do sol. Certamente o Vento Verde estaria navegando pelo céu de volta para ela algum dia, rindo e saltando e rimando, este seria o seu jeito de voltar para o mundo dela. E uma vez que a Marquesa tinha sido derrotada e as fechaduras do Reino Encantado desfeitas, dessa vez Setembro não teria façanhas terríveis para realizar, nem testes severos sobre a sua coragem, somente prazer e diversão e brincadeiras bobas.
Mas, o Vento Verde não veio.
Assim como o fim da primavera estava próxima, ela voltou a se preocupar seriamente. O tempo corria diferente no Reino Encantado - e se ela completasse 80 anos antes de 1 ano ter passado lá? E se o Vento Verde viesse e encontrasse uma senhora idosa reclamando de tudo? Bem, com certeza Setembro iria com ele de qualquer forma - ela não hesitaria tendo 18 ou 80 anos! Mas senhoras idosas certamente enfrentariam perigos no Reino Encantado, tal como quebrar um quadril enquanto estivesse cavalgando um triciclo selvagem ou ter todo mundo fazendo o que você diz, só porque você tem rugas no rosto. A última coisa não seria de todo mal - talvez Setembro pudesse ser uma fabulosa bruxa velha e aprendesse a gargalhar. Ela poderia ficar muito boa nisso. Mas demorou tanto a espera! Até mesmo o pequeno cachorro de rosto sombrio começou a olhar fixamente para ela, como se lhe dissesse, Vocês não deveriam estar se dando bem agora?
E pior, e se o Vento Verde tivesse se esquecido dela? Ou encontrado uma outra garota tão capaz quanto Setembro em derrotar a maldade e dizer coisas inteligente? E se todo mundo no Reino Encantado tivesse simplesmente feito uma reverência em agradecimento pelo favor e voltado para as suas vidas, sem pensar mais em sua pequena amiga humana? E se nunca mais ninguém voltasse para ela novamente?
Setembro completou 13 anos. Ela nem se preocupou em convidar alguém para uma festa. Ao invés disso, sua mãe lhe deu uma pilha de cartas de racionamento amarradas por uma fita marrom aveludada. Ela os economizou por meses. Manteiga, açúcar, sal, farinha. E na loja, a senhora Bowman lhe deu um pequeno pacote de cacau em pó para coroar tudo. Setembro e sua mãe fizeram um bolo juntas na cozinha, enquanto o pequeno e frenético cachorro pulava para lamber a colher de pau. A guloseima tinha tão pouco chocolate que parecia ter cor de poeira, mas para Setembro tinha um gosto maravilhoso. Depois elas foram ver um filme sobre espiões. Setembro pegou um saco cheio de pipoca só para ela e alguns doces também. Ela se sentiu tonta com a abundância de tudo aquilo! Foi quase tão bom quanto um domingo, especialmente porque ela conseguiu três novos livros impressos em folhas verdes especiais - um deles em francês - enviados de uma aldeia que havia sido liberada pelo o seu pai (nós podemos ter certeza que o pai de Setembro ajudou na liberação desta aldeia, mas no que diz respeito a Setembro, ele fez isso sozinho. Possivelmente pela ponta de uma espada, em cima de um glorioso cavalo negro. Às vezes, Setembro achava bastante difícil pensar na guerra do seu pai sem pensar também em sua própria guerra.) Claro que ela poderia não ler isso, mas ele havia escrito na capa "Eu verei você em breve, minha garota." Isso o tornou o melhor livro já escrito. Ele tinha ilustrações, várias, de uma garota não muito mais velha que Setembro sentando na lua e conseguindo alcançar as estrelas com as suas mãos ou de pé no alto de uma montanha lunar conversando com um estranho chapéu vermelho que tinha duas longas penas e que saiam dele para flutuar ao seu lado bem quando ela quisesse. Setembro se debruçava sobre tudo isso e de um jeito teatral tentava dizer as palavras que soavam estranhas e também tentava contar como a história deveria ser. Elas devoraram o bolo cor de poeira rapidamente e a sua mãe pôs uma chaleira no fogo. O cão atacou um osso poderosamente satisfatório. Setembro pegou seus novos livros e saiu para os campos ver o anoitecer e refletir. Ela ouviu o rádio crepitando e falando enquanto ela se permitia sair pela porta dos fundos. O estouro da estática a seguia como uma sombra cinza.
Setembro deitou nas longas gramas altas de Maio. Ela olhou por sobre os talos verdes dourados de grãos. O céu brilhava em tom azul profundo rosado e uma pequena estrela amarela apareceu como uma lâmpada na noite quente. Está é Vênus, Setembro pensou. Ela era a deusa do amor. É bom que o amor venha logo à noite e seja o último a partir pela manhã. O amor mantém a luz acesa por toda a noite. Seja quem for que pensou em chamá-la de Vênus deveria ganhar a nota máxima.
Nós devemos perdoar nossa garota por ignorar o som no início. Pela primeira vez, ela não estava procurando por sons ou sinais estranhos. Pela primeira vez, ela não estava pensando mesmo no Reino Encantado, mas sim a respeito de uma garota falando com um chapéu vermelho e o que isso poderia significar e quão maravilhoso era seu pai ter libertado toda uma aldeia. De qualquer forma, farfalhar é um ruído bastante comum quando os campos de trigo e as gramas selvagens estão envolvidas. Ela ouviu isso e uma pequena brisa bagunçando as páginas dos seus livros de aniversário, mas ela não olhou para cima até um barco a remo voou em alta velocidade sobre a sua cabeça nas pontas dos talos de trigo como se fossem ondas.
Setembro deu um salto e viu duas figuras em um pequeno barco preto, remos girando furiosamente, pulando rapidamente por sobre os campos. O primeiro tinha um chapéu largo, liso e escuro como o de um pescador. E a outra arrastava uma mão larga e prateada sobre as pontas dos grãos secos. O braço cintilava metálico e reluzente, como o pulso fino de uma mulher, metálico e reluzente, com unhas de ferro nas pontas das mãos. Setembro não conseguia ver os seus rostos - o homem tinhas as costas curvadas e enormes, obscurecendo a dama prateada, com exceção dos seus braços.
"Espere!" Setembro gritou, correndo atrás do barco tão rápido quanto ela pudesse ir. Ela reconhecia os acontecimentos do Reino Encantado assim que os via e conseguia vê-los pulando para longe dela naquele exato momento. "Esperem, eu estou aqui!".
"É melhor procurar por Alleyman," falou o homem de capa preta, olhando por sobre os seus ombros. Sombras escondiam o seu rosto, mas a sua voz soava familiar, um tipo de voz doente e áspera que Setembro quase conseguia assimilar. "O Alleyman vem com um carrinho de cartas e um caminhão de ossos, e ele pega todos os nossos nomes numa lista."
A dama prateada pegou o vento com a sua mão reluzente em forma de concha. "Eu estava cortando arames farpados antes de você cortar os seus dentes de leite, caro senhor. Não tente me impressionar com as suas gírias e os seus versos livres e o seu jeito de vencer."
"Por favor, esperem!" Setembro chamava por eles. Seus pulmões se apertavam com força e pesados. "Eu não consigo acompanhar!"
Mas eles remaram mais rápido, por sobre as pontas dos campos e a noite tinha o seu rosto certo e apropriado agora. Oh, eu nunca conseguia alcançá-los" Setembro pensava freneticamente e o seu coração se apertava. Pois embora, como dissemos, todas as crianças são impiedosas, isso não é precisamente verdadeiro sobre os adolescentes. Os corações adolescentes são inexperientes e novos, rápidos e ferozes, e eles não conhecem suas próprias forças. Muito menos sabem suas razões ou suas limitações, e se você quer saber mesmo a verdade, um bom número de corações crescidos nunca aprenderão. E se nós tivéssemos que dizer agora, assim como não pudemos dizer antes, que o coração apertado de Setembro, tinha começado a crescer nela como uma flor na escuridão. Nós também devemos tirar um momento e sentir muito por ela, por ter um coração leve frente aos sofrimentos peculiares dos adultos.
Setembro então, em sua inexperiência, com um coração imaturo e espremido de pânico, correu mais rápido. Ela tinha esperado por tanto tempo e agora eles estavam fugindo. Ela era tão pequena, tão devagar. Como ela poderia aturar isso, como ela poderia suportar a ideia de que perdeu a sua chance? Sua respiração se tornou tão tensa e tão rápida e suas lágrimas começaram a cair pelo canto de seus olhos, apenas para serem chicoteadas enquanto ela corria, esmagando alguns milhos velhos e acidentalmente algumas flores azuis.
"Eu estou aqui!" ela chiou. "Sou eu! Não se vão!"
Ela via a dama prateada brilhar ao longe. Setembro se esforçou tanto para vê-los, para alcançá-los, para correr mais rápido, só um pouquinho mais rápido. Vamos nos aproximar dela e beliscar seus calcanhares, sussurrando em seu ouvido: Vamos lá, você pode mais que isso, você consegue alcançá-los, garota, você pode esticar os seus bracinhos um pouco mais!
E de fato ela conseguiu fazer mais que isso, subiu aquele campo íngreme com mais agilidade, esticou os seus bracinhos um pouco mais, foi se movimentando pela grama, mas acabou não vendo o murinho baixo e cheio de musgos que cruzava o campo repentinamente, até que ela tropeçou e caiu de cara em uma grama tão branca que parecia ter acabado de nevar, exceto pela diferença que este gramado estava fresco e com um cheiro maravilhosamente doce parecido com um sorvete de limão siciliano.
O seu livro acabou esquecido nas gramas repentinamente vazias do nosso mundo. E um vento inesperado, cheirando levemente a várias coisas verdes como hortelã, alecrim e feno fresco virava as páginas rapidamente como se estivesse com pressa para saber o final.
A mãe de Setembro saiu de casa, procurando por sua filha com os olhos inchados de lágrimas. Mas não havia mais uma garota no campo de trigo, apenas 3 livros novos em folha, um punhado de caramelos ainda em sua embalagem de cera e um par de corvos voando, grasnando atrás de um barco a remo que já tinha desaparecido de suas frentes.
Atrás de sua mãe, o rádio de nogueira estalou e cuspiu.

(Fim do primeiro capítulo)